Judith Butler. Quadros de Guerra. Resenha

Judith Butler em ‘Quadros de Guerra: Quando a vida é passível de luto?’, publicado originalmente em 2009, retoma as linhas de força de seu livro de 2004, ‘Precarious Life’. Do título original, ‘Frames of War: When is Life Grievable’, Butler sublinha a relação entre ‘frame’, quadro, e o ato de enquadrar, realizar enquadramento, produzir molduras pelas quais apreendemos a vida dos outros.

O ponto de partida do ensaio de Butler é a importância de se notar a condição precária como constituinte de qualquer concepção relativa ao sujeito ou à subjetividade, tanto quanto capital para a compreensão da relação com o outro. Daí a autora também questionar a ideia de pessoa como individualidade.

O questionamento acima tem como corolário o uso das normas como vias de reconhecimento de formas de diferença. Esse reconhecimento está pautado na primazia do entendimento de que a moldura pela qual a realidade é apreendida deixa sempre escapar algo, um resto que a ultrapassa e que deve se fazer presente seja na definição de si, que não se resume a uma individualidade, seja na relação com o outro, que se constitui como alteridade.

A linha seguida por Butler acaba por revelar os motivos pelos quais ela não se vale de preceitos comuns ao multiculturalismo. Isso porque, segundo o argumento, o multiculturalismo pressuporia comunidades constituídas e, por conseguinte, sujeitos já estabelecidos.

Não partir de um dado a priori é importante para Butler, uma vez que seu foco não é o de ressaltar políticas identitárias, mas, antes, o de fazer surgir a precariedade que nos constitui e suas distribuições diferenciais [55]. É por essa via que ela indaga a possibilidade de que “talvez possamos repensar a liberdade […] como uma condição de solidariedade entre minorias, e perceber como é necessário formular políticas sexuais no contexto de uma crítica incisiva da guerra” [196].

O movimento adotado pelo livro, tal como em ‘Precarious Life’, é o de investigar como novas constelações podem propiciar outros entendimentos sobre a normatividade [207]. Nesse sentido, outra vez ressalta a distinção entre performatividade e construção [238], sobretudo quanto à impossibilidade de se determinar uma origem das normas. Ou seja, não se trata de partir de algo dado, mas de constituir a subjetividade a partir de atos. Daí o uso do termo iterabilidade [237], também proposto por Derrida, que ressalta a possibilidade de repetição e alteração, mudança e deslocamento, sem o apelo a um referente.

O projeto ético e político apresentado por Butler ressalta que o reconhecimento do outro implica a apreensão da precariedade que é própria à vida e que não está adstrita a um indivíduo, dependendo de condições sociais e políticas. É assim que ela afirma que “as condições sociais da minha existência nunca são completamente determinadas por mim” [241]. É por esse motivo também que a precariedade seria a “condição generalizada para toda e qualquer estratégia, somos precariedade compartilhada”[256]. A conclusão de Butler mostra o fio da navalha onde seria preciso encontrar o lugar a partir do qual estabelecer a luta que se exigiria agora: “Nenhum sujeito tem o monopólio sobre ‘ser perseguido’ ou ‘ser perseguidor’, nem mesmo quando histórias fortemente sedimentadas (formas de reiteração densamente combinadas) produziram esse efeito ontológico” [255].

O desafio proposto por Butler é patente igualmente nesta citação:

Reconhecer a violência não garante, de modo algum, uma política de não violência. Mas o que pode perfeitamente fazer diferença é considerar a vida precária e, portanto, também a condição de violável uma condição generalizada, em vez de uma maneira diferencial de marcar uma identidade cultural, isto é, como um traço recorrente ou atemporal de um sujeito cultural que é perseguido ou violado por definição e independentemente da circunstância histórica [250–1].

Ao final, Butler condensa seus argumentos da seguinte forma:

Nessas circunstâncias [das dificuldades de se manter receptivo a uma vicissitude da igualdade], quando agir reproduz o sujeito à custa de outro, não agir significa, no fim das contas, uma maneira de se comportar de modo a romper com o círculo vicioso da reflexividade, uma maneira de ceder aos laços que atam e desatam, uma maneira de registrar e exigir igualdade de maneira efetiva. Trata-se mesmo de um modo de resistência, especialmente quando recusa e rompe os enquadramentos por meio dos quais a guerra é forjada repetidas vezes.


BUTLER, Judith. Quadros de guerra: Quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

Publicado originalmente em Cartas do Litoral

Tangerine

Gênero, vulnerabilidade e agência

De outra parte, a tentativa de proteger a vulnerabilidade tem resultado em políticas em que a situação vulnerável parece estar sendo fixada, ou nos termos mais contemporâneos, estabilizada como um atributo, retirando a agência dos que são tomados como tal. O que até os anos 90 se configurava como a disputa entre a opressão e a transgressão passou a ser a contraposição entre a capacidade de escolha e a vulnerabilidade, trazendo efeitos que me parecem ter que ser melhor ponderados. Maria Filomena Gregori.

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A vítima tem sempre razão?

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1945

O ruído das coisas ao cair. Resenha

Como escrever sobre a vulnerabilidade que nos habita?

Nesse romance a memória e a história têm um lugar especial. Os fragmentos, as lembranças, as narrativas incompletas, o passado e sua interpretação tudo isso compõe um tempo no qual somos envolvidos junto com os personagens e a partir do qual vislumbramos bifurcações que apontam também para futuros incriados…mas cujas interrogações fazem-se atuais. A Colômbia, sua história e seu presente, Bogotá e seus cidadãos, todos são personagens na letra de Vásquez e recebem descrições que nos convidam a conhecer imagens que desenham violências, desencontros e persistências.

É do seio de interrogações que nascem do encontro entre geografia, história, memória e acaso que nos damos conta da vulnerabilidade que nos define e do desconforto de viver com ela. Dessa perspectiva, ainda que a Colômbia esteja no horizonte da narrativa, aquela vulnerabilidade diz respeito a todos nós.


Vásquez, J. G. (2013). O ruído das coisas ao cair. Rio de Janeiro: Objetiva.

Leia a resenha completa em Cartas do Litoral.

A silenciosa revolução das empregadas domésticas colombianas

María Roa Borja levou às lágrimas aplateia que a escutou sete meses atrás na Universidade Harvard. Lutando contra o nó na garganta e o nervosismo que mal a deixavam falar, Roa Borja narrou ali vários capítulos da sua vida. Contou como foi deslocada pela violência em seu país, a Colômbia, e como é difícil trabalhar como empregada doméstica. Pediu reconhecimento às mulheres que vivem de servir aos outros e exigiu bom tratamento. [Leia mais – El País]