SEÑORITA MARÍA, LA FALDA DE LA MONTAÑA

María Luisa: la falda de la montaña
Señorita María, la reivindicación de una mujer que nació en cuerpo de hombre

Qué raro me llame Federico. Yolanda Reyes. Resenha

Que Yolanda Reis inicie sua novela com uma epígrafe que remeta a Pinóquio, deve sugerir que o caminho para o qual somos convidados a segui-la apontará para uma história na qual limiares serão destacados: do inumano ao humano, do amor ao seu fim, do desejo e sua transformação. A pergunta sobre a origem mostra-se a todo instante nas páginas de Reis.

‘Habia una vez un pedazo de madera’…e a travessia do inanimado ao humano, do pau à criança, é a mesma jornada que vivemos com Belén e Federico, nos caminhos intrincados e nebulosos nos quais o desejo por um filho faz-se laço de filiação. Que esse desejo tenha passado pelo amor por um homem, é um traço importante na história, tanto quanto que o filho advenha quando o vínculo amoroso com o homem encontra-se rompido.

De modo muito objetivo Yolanda Reis mostra o caminho interminável que o movimento de querer um filho pode assumir. Da reprodução natural à reprodução assistida, dos fracassos que se colhe nas esquinas da vida de Belén e de seu companheiro, é a adoção que surge, pelas palavras do outro, como alternativa viável. Alternativa a ser perseguida em um espaço muito distinto do da Europa, reforçando a ideia de que algo de estranho, diferente, outro, imiscui-se na busca que se impõe sobre qualquer outro desejo: ser mãe, ter um filho.

Como se pode contar uma história sem saber o seu começo?

Belén parte da Espanha para encontrar na Colômbia aquele que se tornará seu filho. Essa é a primeira parte do livro, na qual os meandros, as frustrações, as alegrias, as dúvidas pavimentam o caminho até o limiar onde ter um filho tornara-se algo sobre o quê não mais se guardava controle algum. Outra parte da narrativa mostra o reverso da primeira história. Federico, a memória sem palavras, o dever de reencontrar o passado, de visitar uma terra da qual conhece apenas o nome. Algo a ser (re)construído, descoberto, indagado. Origem, mais uma vez.

A novela de Reis, de diferentes formas, acaba por acentuar o resto, a fratura, o que não encontra um lugar exato no desejo ou no amor. É a vida conjugal que acaba, mesmo diante do que demanda continuidade; é a expectativa de ser mãe de uma menina que se depara com a realidade do menino que se torna seu filho; ou ainda a necessidade de ter o filho junto a si, confrontada com a divisão que leva o jovem a buscar o que acredita ter ficado pelo caminho (de quem nasci? De onde vim? Por que fui adotado?). Que a experiência de ser mãe acabe por não corresponder exatamente ao que sonhara é uma aprendizagem que se desenha na vida de Belén e dali, na de Federico. A maternidade aparenta mostrar-se de modos inimagináveis, tanto quanto ser filho de alguém revela-se um abismo para o qual busca-se incessantemente palavras para colorir a distância que insiste.

Pinóquio, Tarzan, Peter Pan e o Patinho Feio: esses forma meus livros de autoajuda.

Se Belén encontra seu filho na fratura da experiência amorosa com seu companheiro, Federico descobre os modos múltiplos do amor e do desejo na errância a que se vê lançado pela miragem do passado. É na Colômbia, nas idas e vindas a procura de algo que mal consegue nomear, na distância que se perpetua ante uma genitora inalcançável e uma mãe que se torna voz, nome, lembrança, é aí que Federico descobre o que quer fazer na vida e o que pode significar o desejo por uma mulher.


REYES, Yolanda. Qué raro que me llame Federico. Bogotá: Alfaguara, 2016. 199 p.


 Publicado originalmente em Cartas do Litoral.

Los niños en Colombia también tienen derecho a cambiarse el sexo en sus documentos. Vice

No dejemos que les hagan conejo a los niños trans, bajo la excusa de que este derecho solo aplica a adultos y adolescentes.

“MEDELLÍN: MEMORIAS DE UNA GUERRA URBANA”. UN INFORME DE CIUDAD PARA LEER Y ANALIZAR

Medellín, la segunda ciudad más grande de Colombia, es el escenario que desde la década de 1980 ha presenciado la disputa entre diversos actores del conflicto armado colombiano. En el informe Medellín: memorias de una guerra urbana, el Centro Nacional de Memoria Histórica y la Corporación Región reconstruyen los porqués del conflicto armado que enfrentó la ciudad entre 1980 y 2014, a través de un relato colectivo en el que las víctimas son protagonistas.

Leia a matéria completa e acesse as entrevistas com os coordenadores dos capítulos que compõem o relatório ‘Medellín: memorias de una guerra urbana’.

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“Narrativas, Representaciones y Lugares de la Memoria”. 8 de ago. 2018: 08h. 9 de ago. 2018: 18h. Museo Casa de la Memoria

Dialoguemos sobre las formas narrativas, los objetos, las imágenes, las experiencias, los lugares, en los cuales esas memorias encuentran las formas de hacerse comunicables, visibles.

Iniciativas de memória. Altares Espontâneos, por Sandra Arenas

Onde está a memória e o quê ela agencia?

O interesse acadêmico pelos altares espontâneos (Spontaneous Shrines), um tipo de iniciativa de memória, surgiu na década de 1980, com o etnólogo alemão Martin Scharfe (1989 apud MARGRY; SÁNCHEZ-CARRETERO, 2011) que analisou os altares populares criados com rosas pela morte do primeiro ministro Olof Palme (primeiro-ministro sueco assassinado na saída de um cinema em 1986).

Em 1995 o sociólogo americano Allen Haney (1995, apud MARGRY; SÁNCHEZ-CARRETERO, 2011) analisou as cruzes nas estradas. Um ano mais tarde o etnólogo australiano Konrad Köstlin (1999 apud MARGRY; SÁNCHEZ-CARRETERO, 2011) realizou um estudo no qual pesquisou os altares nas estradas europeias. Esse tipo de artefato de memória tem sido objeto de análise em campos como a antropologia, sociologia, etnografia, história, estudos culturais, folclore e estudos religiosos.

Entre os diversos autores que trabalham com o tema, retomamos o conceito de altares espontâneos, usado por Jack Santino (2003; 2011). Ainda assim, retomaremos para sua definição aspectos que outros autores destacam, em especial Margry e Sánchez-Carretero (2011) e Erika Doss(2006).

Segundo Santino (2011), os altares espontâneos estão entre a comemoração e o ativismo social. Eles são uma forma de ação social não institucional, que tem como objetivo chamar a atenção para o que aconteceu e incitar para agir no sentido de expressar sua indignação, evitar que aconteça de novo, encontrar responsáveis e fazer justiça. Surgem quando as mortes de alguma maneira são sentidas como próprias por uma comunidade e ela mesma cria mecanismos de elaboração do luto no espaço público.

A forma como esses altares são construídos está de acordo com códigos de representação e com o contexto cultural e expressivo de sua origem. Alguns dos altares espontâneos analisados por Santino estão localizados no condado de Londonderry, Irlanda do Norte, cenário de confrontos entre nacionalistas católicos e unionistas protestantes. Local onde aconteceram os fatos conhecidos como Domingo Sangrento, onde o exército atirou contra pessoas que faziam protesto, assassinando 14 manifestantes, entre eles um menor de idade.

 

Os altares são diversos, alguns são criados em datas comemorativas, no lugar onde aconteceram fatos importantes ou onde foi morta uma pessoa. Alguns podem ser efêmeros, ter flores e imagens religiosas ou cachecóis com símbolos de times de futebol. Outros são permanentes e podem ser murais fotorrealistas dos heróis ou das vítimas das jornadas de protestos ou ter conteúdos religiosos.

Na elaboração dos altares são utilizados diferentes elementos da cultura material, em alguns casos são símbolos religiosos, mas eles transcendem esses rituais e costumes para adquirir significados mais políticos (DOSS, 2006). São percebidos como formas de materialização do luto público, no qual morte e vida encontram proximidade na mediação desses objetos materiais (MARGRY; SÁNCHEZ-CARRETERO, 2011). Santino os chama “portais” entre a vida e a morte. Isso pode explicar porque alguns casos transformam-se em santuários populares ou lugares de peregrinação. Para Jack Santino a principal característica desses altares é sua espontaneidade. Ele usa a expressão altares espontâneos (spontaneous shrines) para destacar a natureza não oficial do fato, quer dizer, sua realização não tem vinculações com o Estado ou com outras instituições como a igreja, sindicatos ou organizações sociais. Com a palavra “espontâneo” não quer significar frívolo ou impulsivo, ele se refere à automotivação das pessoas envolvidas, a seu desejo de participar ou contribuir na sua criação. Não há um dever formal, só um compromisso ético idiossincrático ou de responsabilidade.

Os altares podem ser efêmeros, mas outras vezes tornam-se permanentes, acabam fazendo parte da paisagem e da história local. Nesses casos podem ser patrimonializados, como aconteceu com os altares em Atocha, que foram transformados nos Archivos del Duelo, assim como alguns dos objetos deixados nas Torres Gêmeas que hoje fazem parte do Museum 9/11 Memorialem Nova York (SÁNCHEZ-CARRETERO, 2011).

Segundo Santino (2011), Doss (2002), Margry e Sánchez-Carretero (2011), Hallan e Hockey (2001) os altares são rituais públicos de luto diante de mortes inesperadas e consideradas injustas. Assim como formas de ação social que demandam justiça ou mudanças. A memorializacão da morte no espaço público não é só uma forma de expressão da pena, também precipitam novas ações no social e na esfera pública. Doss (2002) e Birman et al (2004) enfatizam a instrumentalização política dos altares espontâneos e assinalam sua força para provocar a ação social. Na criação dos altares não somente se comemora, essa ação questiona, procura encontrar respostas, entender o que aconteceu e pedir por responsabilidades ou demandar mudanças.

São chamados altares porque são mais do que memoriais. Geralmente construídos no último lugar onde a vítima foi vista com vida, significam vida em lugar de morte (SÁNCHEZ-CARRETERO, C, 2011,SANTINO, 2011). No entanto, alguns especialistas consideram que o termo altar não deveria ser usado, pois tem conotações religiosas, que nem sempre existem. Além disso, pode ocultar o sentido político da performance como resposta e ação social, por isso preferem outras denominações como memoriais efêmeros (DOSS, 2002).

Os altares problematizam essa separação entre a dor sentida pela pessoa diretamente afetada e o sentimento de luto coletivo; entre memória individual e memória coletiva, entre privado e público. Esses altares não foram feitos no espaço da casa, eles são públicos, o que indica que essa dor não se considera privada, senão compartilhada por uma comunidade afetiva (HALBWACHS, 2006; JIMENO, 2010; BUTLER, 2006). A dor pela morte do filho ou do amigo pode ser considerada como privada, concernindo à pessoa ou a seu círculo familiar. Contudo, que acontece quando essa expressão de dor faz-se em público e passa a ser sentida como coletiva e a viver-se como um ritual de luto? Da mesma forma, como pensar a reação de pessoas que diante da morte de desconhecidos a sentem como própria?

Com frequência pena e tristeza são compreendidos como uma expressão pessoal, uma angústia emocional, relacionada com perdas ou mortes. Por outro lado, o luto é definido como uma prática ritualizada que ajuda a mitigar a angústia. Ao considerar como injusta uma morte, ao pensar que é necessário fazer algo para que não aconteça novamente, que a morte não é um problema privado, senão coletivo, ali se apresenta um uso memorial do espaço publico, transformando o lugar da morte num cenário para a expressão e a ritualização do luto. (SÁNCHEZ-CARRETERO, C, 2011).

Segundo Margry e Sánchez-Carretero, os altares espontâneos têm uma capacidade performativa, tentam fazer algo, gerar mudanças, interagir com o público. Essa capacidade não está limitada ao memorial ou a espaços, inclui a agência dos objetos, as narrativas dos indivíduos, o comportamento das pessoas envolvidas no memorial. Seu efeito vai além do evento que os provoca e fazem deles um enunciado maior. Adquirem um grande poder narrativo pelo significado e simbolismo implícito neles. Sua importância radica principalmente no que geram. Os altares espontâneos criam uma dinâmica e um processo expressivo que ajudam as pessoas a definir quem elas são como indivíduos e como coletivos.

Doss (2006) se pergunta como, por que, quem e o quê é lembrado, e para quem são feitos os altares espontâneos. Poderíamos agregar: quem os criou e o que eles representam em seu entorno. Os altares estão localizados na fronteira entre a paralisia, o medo, o estupor que a morte produz e a necessidade de fazer algo, que em muitos casos tem uma conotação claramente política.


O texto acima é uma versão modificada do que pode ser encontrado em GRISALES, Sandra Patricia Arenas. Os vaga-lumes da memória: altares espontâneos e narrativas de luto em Medellín — Colômbia. 2014. 240 f. Tese (Doutorado) — Programa de Pós-graduação em Memória Social, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014. Disponível em: http://bit.ly/2mCNgiU. Acesso em: 17 mar. 2017.


*Publicado originalmente em Cartas do Litoral.

Memoria en la calle. Altares espontâneos

Memoria en la calle