Iniciativas de memória. Altares Espontâneos, por Sandra Arenas

Onde está a memória e o quê ela agencia?

O interesse acadêmico pelos altares espontâneos (Spontaneous Shrines), um tipo de iniciativa de memória, surgiu na década de 1980, com o etnólogo alemão Martin Scharfe (1989 apud MARGRY; SÁNCHEZ-CARRETERO, 2011) que analisou os altares populares criados com rosas pela morte do primeiro ministro Olof Palme (primeiro-ministro sueco assassinado na saída de um cinema em 1986).

Em 1995 o sociólogo americano Allen Haney (1995, apud MARGRY; SÁNCHEZ-CARRETERO, 2011) analisou as cruzes nas estradas. Um ano mais tarde o etnólogo australiano Konrad Köstlin (1999 apud MARGRY; SÁNCHEZ-CARRETERO, 2011) realizou um estudo no qual pesquisou os altares nas estradas europeias. Esse tipo de artefato de memória tem sido objeto de análise em campos como a antropologia, sociologia, etnografia, história, estudos culturais, folclore e estudos religiosos.

Entre os diversos autores que trabalham com o tema, retomamos o conceito de altares espontâneos, usado por Jack Santino (2003; 2011). Ainda assim, retomaremos para sua definição aspectos que outros autores destacam, em especial Margry e Sánchez-Carretero (2011) e Erika Doss(2006).

Segundo Santino (2011), os altares espontâneos estão entre a comemoração e o ativismo social. Eles são uma forma de ação social não institucional, que tem como objetivo chamar a atenção para o que aconteceu e incitar para agir no sentido de expressar sua indignação, evitar que aconteça de novo, encontrar responsáveis e fazer justiça. Surgem quando as mortes de alguma maneira são sentidas como próprias por uma comunidade e ela mesma cria mecanismos de elaboração do luto no espaço público.

A forma como esses altares são construídos está de acordo com códigos de representação e com o contexto cultural e expressivo de sua origem. Alguns dos altares espontâneos analisados por Santino estão localizados no condado de Londonderry, Irlanda do Norte, cenário de confrontos entre nacionalistas católicos e unionistas protestantes. Local onde aconteceram os fatos conhecidos como Domingo Sangrento, onde o exército atirou contra pessoas que faziam protesto, assassinando 14 manifestantes, entre eles um menor de idade.

 

Os altares são diversos, alguns são criados em datas comemorativas, no lugar onde aconteceram fatos importantes ou onde foi morta uma pessoa. Alguns podem ser efêmeros, ter flores e imagens religiosas ou cachecóis com símbolos de times de futebol. Outros são permanentes e podem ser murais fotorrealistas dos heróis ou das vítimas das jornadas de protestos ou ter conteúdos religiosos.

Na elaboração dos altares são utilizados diferentes elementos da cultura material, em alguns casos são símbolos religiosos, mas eles transcendem esses rituais e costumes para adquirir significados mais políticos (DOSS, 2006). São percebidos como formas de materialização do luto público, no qual morte e vida encontram proximidade na mediação desses objetos materiais (MARGRY; SÁNCHEZ-CARRETERO, 2011). Santino os chama “portais” entre a vida e a morte. Isso pode explicar porque alguns casos transformam-se em santuários populares ou lugares de peregrinação. Para Jack Santino a principal característica desses altares é sua espontaneidade. Ele usa a expressão altares espontâneos (spontaneous shrines) para destacar a natureza não oficial do fato, quer dizer, sua realização não tem vinculações com o Estado ou com outras instituições como a igreja, sindicatos ou organizações sociais. Com a palavra “espontâneo” não quer significar frívolo ou impulsivo, ele se refere à automotivação das pessoas envolvidas, a seu desejo de participar ou contribuir na sua criação. Não há um dever formal, só um compromisso ético idiossincrático ou de responsabilidade.

Os altares podem ser efêmeros, mas outras vezes tornam-se permanentes, acabam fazendo parte da paisagem e da história local. Nesses casos podem ser patrimonializados, como aconteceu com os altares em Atocha, que foram transformados nos Archivos del Duelo, assim como alguns dos objetos deixados nas Torres Gêmeas que hoje fazem parte do Museum 9/11 Memorialem Nova York (SÁNCHEZ-CARRETERO, 2011).

Segundo Santino (2011), Doss (2002), Margry e Sánchez-Carretero (2011), Hallan e Hockey (2001) os altares são rituais públicos de luto diante de mortes inesperadas e consideradas injustas. Assim como formas de ação social que demandam justiça ou mudanças. A memorializacão da morte no espaço público não é só uma forma de expressão da pena, também precipitam novas ações no social e na esfera pública. Doss (2002) e Birman et al (2004) enfatizam a instrumentalização política dos altares espontâneos e assinalam sua força para provocar a ação social. Na criação dos altares não somente se comemora, essa ação questiona, procura encontrar respostas, entender o que aconteceu e pedir por responsabilidades ou demandar mudanças.

São chamados altares porque são mais do que memoriais. Geralmente construídos no último lugar onde a vítima foi vista com vida, significam vida em lugar de morte (SÁNCHEZ-CARRETERO, C, 2011,SANTINO, 2011). No entanto, alguns especialistas consideram que o termo altar não deveria ser usado, pois tem conotações religiosas, que nem sempre existem. Além disso, pode ocultar o sentido político da performance como resposta e ação social, por isso preferem outras denominações como memoriais efêmeros (DOSS, 2002).

Os altares problematizam essa separação entre a dor sentida pela pessoa diretamente afetada e o sentimento de luto coletivo; entre memória individual e memória coletiva, entre privado e público. Esses altares não foram feitos no espaço da casa, eles são públicos, o que indica que essa dor não se considera privada, senão compartilhada por uma comunidade afetiva (HALBWACHS, 2006; JIMENO, 2010; BUTLER, 2006). A dor pela morte do filho ou do amigo pode ser considerada como privada, concernindo à pessoa ou a seu círculo familiar. Contudo, que acontece quando essa expressão de dor faz-se em público e passa a ser sentida como coletiva e a viver-se como um ritual de luto? Da mesma forma, como pensar a reação de pessoas que diante da morte de desconhecidos a sentem como própria?

Com frequência pena e tristeza são compreendidos como uma expressão pessoal, uma angústia emocional, relacionada com perdas ou mortes. Por outro lado, o luto é definido como uma prática ritualizada que ajuda a mitigar a angústia. Ao considerar como injusta uma morte, ao pensar que é necessário fazer algo para que não aconteça novamente, que a morte não é um problema privado, senão coletivo, ali se apresenta um uso memorial do espaço publico, transformando o lugar da morte num cenário para a expressão e a ritualização do luto. (SÁNCHEZ-CARRETERO, C, 2011).

Segundo Margry e Sánchez-Carretero, os altares espontâneos têm uma capacidade performativa, tentam fazer algo, gerar mudanças, interagir com o público. Essa capacidade não está limitada ao memorial ou a espaços, inclui a agência dos objetos, as narrativas dos indivíduos, o comportamento das pessoas envolvidas no memorial. Seu efeito vai além do evento que os provoca e fazem deles um enunciado maior. Adquirem um grande poder narrativo pelo significado e simbolismo implícito neles. Sua importância radica principalmente no que geram. Os altares espontâneos criam uma dinâmica e um processo expressivo que ajudam as pessoas a definir quem elas são como indivíduos e como coletivos.

Doss (2006) se pergunta como, por que, quem e o quê é lembrado, e para quem são feitos os altares espontâneos. Poderíamos agregar: quem os criou e o que eles representam em seu entorno. Os altares estão localizados na fronteira entre a paralisia, o medo, o estupor que a morte produz e a necessidade de fazer algo, que em muitos casos tem uma conotação claramente política.


O texto acima é uma versão modificada do que pode ser encontrado em GRISALES, Sandra Patricia Arenas. Os vaga-lumes da memória: altares espontâneos e narrativas de luto em Medellín — Colômbia. 2014. 240 f. Tese (Doutorado) — Programa de Pós-graduação em Memória Social, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014. Disponível em: http://bit.ly/2mCNgiU. Acesso em: 17 mar. 2017.


*Publicado originalmente em Cartas do Litoral.
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Memoria en la calle. Altares espontâneos

Memoria en la calle

El renacimiento de Natalia Ponce de León. Resenha

Violência contra a mulher. Sobrevivência e seus desafios. Justiça e reparação.

A jornalista Martha Soto apresenta a luta de Natalia Ponce de León para sobreviver ao ataque com ácido que sofreu, quando tinha 33 anos.

Em março de 2014 um homem chegou à portaria do edifício onde vivia Natália e invocando o nome de um ex-namorado dela junto ao porteiro, acabou por convencê-la a descer.

Ao saudar o homem, Natália recebeu sobre o seu rosto, e por boa parte de seu corpo, 1 litro de ácido. Língua e traquéia também foram atingidos. Em um primeiro momento não se sabia quem teria sido o autor da ação violenta. Posteriormente, tendo havido essa identificação, verificou-se que não havia ligação efetiva entre o homem que desferiu o ataque e Natalia. Teria haviado no passado amigos comuns entre ambos, bem como problemas relativos aos cachorros de um de outro. Igualmente o homem uma vez chegou a ofendê-la publicamente. Esse homem era Jhonatan Vega Chávez.

A batalha de Natalia pela vida, o apoio recebido por familiares, amigos, médicos e desconhecidos, da Colômbia e do exterior, os procedimentos médicos, policiais e judiciais para cuidar de Natalia, identificar o culpado, capturá-lo e julgá-lo; os limites, as fraquezas e as excelências dos diferentes serviços voltados à vítima, tudo isso é descrito, acompanhado com fragmentos de entrevistas com Natália e com os demais envolvidos.

Dados sobre os ataques com ácido também são apresentados, tanto no plano internacional como no nacional. Sabe-se que Paquistão, Bangladesh e Colômbia apresentam números muito altos desse tipo de ataque, tendo o último país destaque especificamente quanto ao seu uso contra mulheres.

O livro não tem o intuito de realizar uma abordagem analítica do caso, mas o de apresentar as vozes de diferentes atores envolvidos na vida e na recuperação de Natália, bem como na busca de justiça pelo ocorrido. A criação de uma ONG voltada a essas vítimas e as alterações legais que se seguiram são consequências da mobilização que Natália suscitou.

A leitura deixa conhecer um pouco das inacreditáveis dificuldades enfrentadas por Natalia a fim de manter-se viva e do que se colocava a ela como possibilidades dali em diante.

Soto, M. (2015). El renacimiento de Natalia Ponce de León. Bogotá: Intermedio.

Publicado originalmente em Cartas do Litoral

La memoria y la comunidad en la experiencia de vulnerabilidad

El mural de Santo Domingo Savio

“En Colombia, en los últimos años hubo un proceso lento de recuperación de la memoria del conflicto armado. Este proceso es único en el mundo, pues habiendo iniciado el conflicto hace más de seis décadas, este todavía no ha terminado.1 Los procesos jurídicos por las violaciones de los derechos humanos que de ahí se derivan solo ahora arrojan sus primeros resultados: las víctimas están siendo reconocidas y recibiendo reparación del Estado. Actos de violencia significativos para conocer la verdad de lo sucedido y sus responsables son investigados.

Antes de este panorama surgieron en Colombia múltiples iniciativas de memoria generalmente impulsadas por grupos de personas u organizaciones de víctimas. Estas iniciativas eran formas de agenciar y hacer circular el dolor y el sufrimiento, trasladando para la esfera pública los sentimientos que por años permanecieron en el ámbito de lo privado. (Grupo de Memoria Histórica, 2009). Es en esa memoria de supervivencia que podemos indagar las acciones políticas de los sujetos y sus relaciones con la violencia. En este artículo describimos la creación de una de esas iniciativas en la ciudad de Medellín, un mural con los nombres de las personas asesinadas en el barrio Santo Domingo Savio (véase foto 1). A partir de esta descripción, analizamos la relación entre las concepciones de memoria, común y comunidad.

La iniciativa de memoria objeto de este análisis hace parte de una investigación cualitativa que tuvo como objetivo: analizar las acciones y prácticas culturales por las cuales los sujetos reconstruyen sus memorias en contextos de violencia e identificar los usos políticos de la memoria, como resistencia política en los espacios de lo cotidiano, íntimo, familiar o comunitario. El método usado fue el estudio de caso debido a su foco en lo particular y por abordar el significado de la experiencia a partir del análisis sistemático de un mismo fenómeno (Yin, 2012). Las técnicas usadas para obtener informaciones fueron la pesquisa documental y bibliográfica y la entrevista en profundidad con algunos de los creadores del mural y habitantes del barrio.

El texto está dividido en cuatro partes: en la primera realizamos una breve descripción del contexto de creación de la iniciativa de memoria, los conflictos vividos en el barrio y en la ciudad de Medellín. En la segunda abordamos concretamente los procesos de construcción del mural, los debates producidos entre sus creadores y los habitantes del barrio, los procesos de identificación y reconocimiento. En la tercera parte analizamos el trabajo de luto y memoria como posibilidad o no de conformación de una comunidad. Por último se presentarán las conclusiones. El texto no hace una separación entre la presentación del caso y el marco teórico y referencial, intentando crear así un diálogo entre estos para dar relevancia a los testimonios de los entrevistados.

1. Santo Domingo Savio y los conflictos violentos en Medellín

Los primeros habitantes de Santo Domingo Savio, en el nororiente de Medellín, llegaron allí en la década de 1960. Ellos vivían en condiciones precarias, no eran propietarios de la tierra y enfrentaron una ardua lucha para legalizar sus propiedades y obtener las condiciones mínimas de subsistencia. En la década de 1980, el aumento de la ocupación ilegal y el crecimiento de la población en el sector, impactaban significativamente la región. Simultáneamente en ese período se consolidó el poder del narcotráfico, identificado por algunos como la época en que las condiciones del barrio cambiaron. El Cartel de Medellín2 involucró en sus actividades a jóvenes habitantes de estos barrios. Esto trajo como consecuencia un aumento en la delincuencia y en la creación de grupos dedicados a actividades ilícitas (González Vélez y Carrizosa, 2011). Aunque el narcotráfico no era el único responsable de la violencia. En la década de 1990 la ciudad fue testigo del incremento de la violencia con la presencia de las milicias, que eran grupos armados organizados con objetivos de defensa y seguridad de los habitantes (Jaramillo, 1994), y organizaciones criminales, algunas de ellas con sofisticados sistemas de operación y fuerte control territorial (Alonso, Giraldo y Sierra, 2006). En el presente siglo, hicieron presencia los grupos paramilitares de las Autodefensas Unidas de Colombia, directamente asociados a los narcotraficantes que tomaron el control del negocio después de la muerte de Pablo Escobar (Jaramillo, Ceballos y Villa, 1998; Martin, 2012).

Las luchas por el control del territorio y los enfrentamientos entre los grupos, dejaron como resultado un número considerable de muertes en el barrio, a tal punto que este sector donde está localizado Santo Domingo Savio, la Comuna 1, era considerado uno de los territórios más violentos de Medellín. Entre 1980 y 2010, la Comuna 1 ocupó el segundo lugar en el registro de muertes violentas en la ciudad (Restrepo, Vélez y Pérez, 1997; Gil Ramírez, 2009).

Durante la primera década del siglo XX, el barrio experimentó transformaciones importantes, como consecuencia de intervenciones urbanas como el Metro Cable, sistema de transporte masivo y el Parque Biblioteca España. Por otro lado, también era propicio el contexto para la negociación entre los diferentes grupos armados que operaban en el barrio, debido a los procesos de desmovilización, desarme y reintegración a la vida civil de los grupos paramilitares con presencia en Medellín, promovido por el entonces presidente Álvaro Uribe Vélez (Alonso Espinal y Valencia, 2008)”.


“[…]Una líder comunitaria afirmaba en una entrevista a un periódico local en el 2006: ‘’[el mural] era el recuerdo de una guerra pasada y en algo superada, en la que todos perdimos a alguien o algo, pero perdimos’’ (Henao, 2006). En esta afirmación puede estar la clave para comprender la posición de Julián y de todos aquellos que incluyeron en el mural a sus amigos y familiares.

El mural era una oportunidad para dar sentido y orientación política al luto colectivo. Inscribir los nombres de sus muertos, de todos sus muertos, era reconocer e identificar el sufrimiento propio en el rostro del otro. La expresión pública de este sufrimiento que les era común, suprimía las relaciones de poder y coacción y los igualaba a todos en una misma posición.

Butler (2006) señaló la importancia de fijarnos en el hecho de que nuestra vida esta ligada a la vida de los otros. Como consecuencia, la vida nos reclama la habilidad para narrarnos a nosotros mismos a partir de una posición que no es la propia sino la de un tercero. Podemos preguntarnos si el mural de Santo Domingo Savio no nos coloca en la exigencia de esta perspectiva, del tercero, a partir de la cual nuestra narrativa sobre nosotros mismos sería sensiblemente modificada.

Las negociaciones y disputas, inscripciones y tachaduras, la elección de dejar o no allí los nombres, los conflictos de los nos hablan esos esos movimientos, connotan la relación con lo otro y con las exigencias que se originan desde este horizonte. ¿No sería nuestra vulnerabilidad y la pérdida que allí está implícita lo que se destacaría del escenario en el cual Julián nos hace ingresar? No sería, como Butler (2006), enfatiza, la tarea de duelo la que permitiría la constitución de una comunidad?

¿Qué podemos entender por luto? Butler (2006) afirma que el ‘’luto tiene que ver con la concordancia de sufrir una transformación, cuyo resultado no se sabe de antemano’’ (p. 21) y que ‘’el luto contiene la posibilidad de aprender un modo de desposesión, lo que es fundamental para definir quién soy yo’’ (p. 28). Aquí, es esta desposesión la que se presenta como perspectiva del tercero ya mencionada.

Sin que se quiera colocar en riesgo la distinción entre víctima y verdugo, el mural de Santo Domingo Savio innegablemente constituye un campo propio que tendería a ubicarse al margen de estas distinciones, incluso cuando su existencia revele los conflictos y posiciones que se distribuyen entre esos dos ‘’lados’’. Ese ‘’colocarse al margen’’ marcaría una brecha por la cual podríamos concebir tal vez una forma de comunidad. Como Butler (2006) ya se preguntó: ‘’¿A qué costo establecí lo familiar como criterio por el cuál la perdida de una vida humana merece ser llorada?’’ (p. 38).

Al confrontarnos con el otro que la inscripción en el mural propicia, se abre un margen en el cual se constituye lo común — estar en el mural — , subvirtiendo la idea usual de lo que es familiar, pues verdugos y víctimas están allí. Aquel espacio sería la dimensión de pérdida lo que tocaría a todos. Lo familiar no sería lo más cercano, sino la vulnerabilidad que me liga al otro. Esa ‘’concordancia en sufrir una transformación’’ que Butler asocia al luto, implica igualmente una concepción de sujeto que lo tome en su evanescencia, sin puntos excesivamente fijos de identificación — el bueno y el malo, por ejemplo — . De este modo, se reconoce en el sujeto la dimensión de figura, máscara, fábula, representación: nada, por tanto, que se traduzca por sustancia o posición dada de antemano (James, 2002). Esto es nada próximo a una idea de identidad como fija, acabada o cierta, de modo tal que inviabilice el desplazamiento para la posición del tercero, conforme al sentido de Butler”.


Lea el artículo completo aquí.

O ruído das coisas ao cair. Resenha

Como escrever sobre a vulnerabilidade que nos habita?

Nesse romance a memória e a história têm um lugar especial. Os fragmentos, as lembranças, as narrativas incompletas, o passado e sua interpretação tudo isso compõe um tempo no qual somos envolvidos junto com os personagens e a partir do qual vislumbramos bifurcações que apontam também para futuros incriados…mas cujas interrogações fazem-se atuais. A Colômbia, sua história e seu presente, Bogotá e seus cidadãos, todos são personagens na letra de Vásquez e recebem descrições que nos convidam a conhecer imagens que desenham violências, desencontros e persistências.

É do seio de interrogações que nascem do encontro entre geografia, história, memória e acaso que nos damos conta da vulnerabilidade que nos define e do desconforto de viver com ela. Dessa perspectiva, ainda que a Colômbia esteja no horizonte da narrativa, aquela vulnerabilidade diz respeito a todos nós.


Vásquez, J. G. (2013). O ruído das coisas ao cair. Rio de Janeiro: Objetiva.

Leia a resenha completa em Cartas do Litoral.

A criação do mural no bairro Santo Domingo Sávio, Medellín, Colômbia

Algumas palavras em tributo ao referendo colombiano, outubro/2016

Na parte posterior da igreja de Santo Domingo Sávio há um mural com mais de 380 nomes de pessoas assassinadas. Ele foi construído no mês de outubro de 2005, por iniciativa do sacerdote Julián Gómez junto com moradores do bairro, desmobilizados do grupo paramilitar Cacique Nutibara e ex–milicianos.

Entre os nomes incluídos no mural estão os vizinhos que morreram em confrontos entre grupos armados, por balas perdidas, por cruzar fronteiras invisíveis, entre outras circunstâncias. Ali também estão escritos nomes de homens e mulheres que fizeram parte ativa desses grupos e que em alguns casos foram responsáveis pelo assassinato dos vizinhos.

A construção do mural teve o objetivo de fortalecer os vínculos de identificação debilitados pelos enfrentamentos entre as diversas facções armadas. Nesse processo apresentaram–se discussões sobre quem mereceria ser reconhecido como vítima e que vidas deveriam ser lembradas; sobre a possibilidade ou impossibilidade de reconhecimento do dano e a vulnerabilidade como elemento comum.

Mas o que seria ali ‘fortalecer os vínculos de identificação’? Há que se vislumbrar naquele momento duas vias que o processo de identificação, associado ao fortalecimento dos laços sociais, poderia assumir.

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Adoção por casais homossexuais na Colômbia

Em 19/3/15 escrevi neste Blog  sobre o testemunho do adolescente Sebastian Villalobos, que conseguiu ter mais de 700.000 visualizações com um vídeo no Youtube. Nesse vídeo ele testemunhava sobre sua vida em uma família homoafetiva. Esse testemunho tinha por objetivo mobilizar a sociedade, já que a Corte Constitucional da Colômbia julgaria nos dias seguintes o direito de casais homossexuais realizarem adoção. Naquele momento, o resultado jurídico foi desfavorável.

Em novembro/2015, em uma reviravolta, a Corte Suprema reconheceu o direito da adoção por casais homossexuais.

Leia o post original e veja o vídeo de Sebastian Villalobos aqui.

Publicado originalmente em Cartas do Litoral