Algumas (poucas) linhas sobre psicanálise e genealogia II

A genealogia adverte-nos que, em todo discurso de alerta de barbárie, existe um projeto civilizatório. Assim, o apego ao Édipo como abrigo necessário em oposição suposta ausência de leis fundamentais pressupõe uma intenção estratégic…

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A genealogia adverte-nos que, em todo discurso de alerta de barbárie, existe um projeto civilizatório. Assim, o apego ao Édipo como abrigo necessário em oposição à suposta ausência de leis fundamentais pressupõe uma intenção estratégica, a saber, o relançamento de normas e disciplinas num mundo cada vez mais pautado por regras jurídicas. Para agravar a situação, nesse contexto em que a judicialização da vida adquire atualmente proporções inquietantes, assistimos ao desmantelamento das condições de possibilidade que fizeram do Édipo o eixo normativo tanto da organização social quanto da clínica psicanalítica.  

Há um esgotamento da leitura monolítica do Édipo em Lacan, sendo necessário, creio eu, lançar mão de suas últimas formulações não para responder a Foucault – isso em si não teria muita importância -, mas como meio de criar outras interfaces ao Direito que apontem para diversidade interpretativa a respeito da vida humana. 

Algumas linhas sobre psicanálise e genealogia

Algumas linhas sobre psicanálise e genealogiaEduardo Ponte Brandão O objetivo central da pesquisa desenvolvida ao longo de meu doutoramento, que culminou com a recente publicação do livro “Nem Édipo, Nem Barbárie” foi fazer uma revisão …

 

Algumas linhas sobre psicanálise e genealogia
Eduardo Ponte Brandão

O objetivo central da pesquisa desenvolvida ao longo de meu doutoramento, que culminou com a recente publicação do livro “Nem Édipo, Nem Barbárie” foi fazer uma revisão do Édipo enquanto eixo normativo à luz da genealogia dos poderes de Foucault.

O mote para essa revisão crítica foi o debate público de psicanalistas que, ao discorrerem sobre as práticas da sexualidade e as alianças conjugais e familiares contemporâneas, se apóiam no Édipo para situá-lo como condição fundante da subjetividade humana e, ao mesmo tempo, enquanto contraponto à barbárie.

A escolha desse objeto de pesquisa permitiu-me re-significar a trajetória da minha prática profissional que incide, desde pouco mais de dez anos, nos atendimentos ditos “periciais” de famílias que disputam os interesses de guarda e de convivência dos filhos em Varas de Justiça. Em face de disputas dilacerantes nas quais as fronteiras entre conjugalidade e parentalidade se confundem, não é difícil identificar o usufruto amiúde da criança como objeto de gozo por um ou ambos os pais e suas respectivas famílias (avós, avôs, irmãos, tios, etc.). Tais disputas adquirem contornos dramáticos cujas características não se limitam ao fato de o sintoma da criança expressar, muitas vezes através do corpo, a verdade do par parental, mas extrapolam para o campo das linhagens familiares que a fundam como sujeito. Assim, corre-se o risco de a criança não somente desejar o afastamento de um dos seus pais, mas também riscar o patronímico que leva em seu nome. O sintoma dessa ordem termina por exigir a interface com o Direito, embora a Justiça seja invocada normalmente por aquele que se sente prejudicado, sendo, portanto, aquele que faz apelo a uma instância terceira que garanta as regras de parentesco. Logo, o sofrimento da criança não é o que se revela inicialmente tal qual se poderia esperar numa situação em que os pais procuram um analista para tratá-la ou orientá-los quando se angustiam com o filho. 

Nesse domínio de discussão teórica, Lei simbólica e Desejo são conceitos-chave que gravitam em torno da intercessão entre conjugalidade e parentalidade ou, se quisermos ampliar a discussão, entre sexualidade e aliança. Seja no campo das reivindicações de direitos por parte de famílias e casais homossexuais, seja no campo das praticas jurídicas em torno das disputas familiares, a discussão centrada na Lei e no Desejo revela o eixo nevrálgico que, concomitantemente, separa e articula os interditos da aliança e as vicissitudes da sexualidade.

Até então poderia me dar por satisfeito em possuir uma grade de compreensão de boa parte dos casos em pauta nas Varas de Família. Contudo, passou a me ocupar a dúvida se a referência à Lei e ao Desejo, tal como compreendemos sob a luz de uma certa tradição lacaniana, se esgota como sendo a única forma de interlocução entre Psicanálise e Direito.

Convém deixar claro o que chamo de “certa tradição lacaniana”, correspondendo, vale dizer, à versão simbólico-estrutural do referencial fálico-edipiano. Pedindo licença a um certo esquematismo, trata-se da idéia da mãe dividida em seu ser que não deve transformar o seu bebê num objeto de gozo incestuoso, mas sendo aquela que relança seu desejo enquanto mulher a um homem que, em contrapartida, a deseja como tal e por isso tem sua palavra valorizada no lugar de autoridade que ela, a mãe-mulher dividida, reserva ao Nome do pai na promoção da Lei que, por sua vez, inscreve a criança enquanto sujeito na diferença das gerações e dos sexos.

Foi assim que comecei a me debruçar sobre a fase genealógica do pensamento de Foucault no seu momento mais crítico à psicanálise, portanto, sujeita a muitas incompreensões e posições extremadas tanto por parte dos que aderem às suas teses quanto por boa parte dos psicanalistas.

É possível que, do meu lado, a inscrição de uma certa escuta psicanalítica em meio a práticas jurídicas tenha suscitado o interesse pela dimensão do poder, sobretudo, se ela está mesclada ao que podemos chamar de norma edipiana. Donde surgiu a vontade em, como se diz na filosofia, ranger os conceitos entre a Psicanálise e a genealogia de Foucault, esgotando ao máximo as possibilidades de novos pensamentos.

Genealogicamente, a psicanálise corresponde a uma experiência de exame de si cuja tecnologia impõe modificações sobre o próprio sujeito. Essa transformação do sujeito que examina a si próprio à luz da sexualidade pressupõe a operação por meio da qual lhe é revelada uma verdade particular que é, ao mesmo tempo, atrelada à transcendência da Lei. Em assim sendo, a psicanálise constitui-se como uma modalidade científica da experiência de ascese e de renúncia cristã, sendo resultado de uma longa ramificação que teve origem na reforma tridentina, passou pela campanha antimasturbatória e culminou nas ciências do sexual do século XIX.

 

 

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outras edições

Desafios para a Implementação da Lei n.º 12.010/09 (Nova Lei de Adoção) – Seminário

*dia 26 de março de 2010*, das *9h30 s 18h00*, no auditório do 9 andar do Edifício Sede do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (AvenidaMarechal Câmara, 370 – Centro, Rio de Janeiro/RJ), conforme a programação aseguir: ****…

*dia 26 de março de 2010*, das *9h30 às 18h00*, no auditório do 9º andar do
Edifício Sede do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (Avenida
Marechal Câmara, 370 – Centro, Rio de Janeiro/RJ), conforme a programação a
seguir: **
**

Data/ Horário Atividades

26/03/10

Sexta-Feira

9h30 às 10h00 Abertura:
*

Dr. Carlos Roberto de Castro Jatahy – Subprocurador-Geral de Planejamento
Institucional
*
10h00 às 11h40

Palestra “Aspectos Jurídicos da Lei n.º 12.010/09: Os Novos Procedimentos
para Acolhimento Institucional e as Atribuições dos Conselhos Tutelares”

Dra. Cristiana Faria Cordeiro
*

Juíza de Direito da Vara Regional da Infância, Juventude e Idoso da Capital
(Santa Cruz, Campo Grande e Bangu)
*
11h40 às 12h00
Debates

12h00 às 13h30
Almoço

13h30 às 15h00

Palestra “Reordenamento de Entidades de Acolhimento Institucional”

Ana Angélica Campelo de Albuquerque e Melo
*

Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental – Assessora
Técnica da Secretaria Nacional de Assistência Social – MDS
*

Anália dos Santos
*

Assistente Social do 4º Centro de Apoio Operacional das Promotorias de
Justiça da Infância e Juventude
*
15h00 às 15h20
Debates

15h20 às 17h20
Palestra

“Os Programas de Acolhimento Familiar de Crianças e Adolescentes no Contexto
do Sistema Único de Assistência Social (SUAS)”

Valéria Brahin
*

Associação Brasileira Terra dos Homens
*

Raquel de Aguiar Batista
*

Coordenadora do Programa “Família Acolhedora” – Município do Rio de Janeiro
*

Alice Duarte Bittencourt
*

Coordenadora do Programa “Famílias Acolhedoras” – Município de Porto
Alegre/RS.
*

Maria Fabiana Toledo
*

Psicóloga e Coordenadora do Projeto Família Acolhedora da Associação Civil
Quintal da Casa de Ana – Município de Niterói/RJ.
*
17h20 às 18h00
Debates

18h00
Encerramento

Inscrições no Centro de Estudos Jurídicos pelos telefones (21) 2550-9060 e
2550-9059 ou pelo endereço eletrônico cejur@mp.rj.gov.br
*

Pesquisa na Atualidade: Espaço de Discussão e Intercâmbio Cientifico

FÓRUM DO CAMPO LACANIANO DO RIO DE JANEIRO ESCOLA DE PSICANÁLISE DOS FÓRUNS DO CAMPO LACANIANO

   

FÓRUM DO CAMPO LACANIANO DO RIO DE JANEIRO

ESCOLA DE PSICANÁLISE DOS FÓRUNS DO CAMPO LACANIANO

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Pesquisa na Atualidade:

Espaço de Discussão e Intercâmbio Científico

Coordenação: Georgina Cerquise

5as feiras, 21:30 h

25/03

Eduardo Pontes Brandão

Nem Édipo, Nem Barbárie

O Seminário de Pesquisa é uma atividade do Campo Lacaniano — uma parceria do Fórum Rio e de Formações Clínicas — que visa à troca epistêmica e ao intercâmbio da produção científica em psicanálise, articulados ao trabalho na Universidade. Contamos com a apresentação de autores de monografia de final de curso de especialização, dissertação de mestrado e tese de doutorado. Os colegas que desejam participar apresentando seus trabalhos devem entrar em contato com a Coordenação do Seminário.

 

ATENÇÃO: 

As atividades do Fórum do Campo Lacaniano têm entrada franca e são abertas ao público interessado. Vagas limitadas.

Local:

Rua Goethe, 66 / 2º andar.

CEP: 22281 – 020 – Botafogo – Rio de Janeiro

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III Simpósio Mosaico da Violência: Violência e Judiciário, palestra da juíza Cristiana de Faria Cordeiro, 2a VRIJI – RJ

O “produto final” que se aguarda do Judiciário é a Justiça. Para fornecer este serviço, há uma liturgia segura e secular: um ambiente asséptico em que o interessado se coloca em plano inferior ao do Julgador; um Juiz togado e hermeticamente fechad…

O “produto final” que se aguarda do Judiciário é a Justiça.

Para fornecer este serviço, há uma liturgia segura e secular: um ambiente asséptico em que o interessado se coloca em plano inferior ao do Julgador; um Juiz togado e hermeticamente fechado, com uma linguagem hermeticamente cifrada – só “decodificada” pelos seus pares, e pelos demais seguidores das carreiras jurídicas; uma sentença que muitas vezes não é uma solução, senão formal, para o litígio que se apresentava… [para continuar: http://bit.ly/bEDEsa ]

H-Madness: Blog dedicado à história da loucura e saúde mental

We are happy to announce the launch of a new blog dedicated to the history of madness and mental health: H-Madness(http://historypsychiatry.wordpress.com

We are happy to announce the launch of a new blog dedicated to the
history of madness and mental health: H-Madness
(http://historypsychiatry.wordpress.com

 

<http://historypsychiatry.wordpress.com/

 

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H-Madness is intended as a resource for scholars interested in the history 
of madness, mental illness and their treatment (including the history of 
psychiatry, psychotherapy, and clinical psychology and social work). The 
 chief goal is to provide a forum for researchers in the

humanities and social sciences to exchange ideas and information about the 
historical study of mental health and mental illness. The blog, therefore, 
primarily serves university and college faculty, students, and independent 
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Subscribers are encouraged to share information about teaching and 
research as well as news about professional activities and events, such as 
 job postings, conferences, and fellowships and grants. While most postings 
are in English, postings in other languages are welcome.

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are eager to contribute reviews from time to time, please contact us, with 
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This whole week will be dedicated to discussions about the newly released 
 draft of the DSM-V with contributions from Allan Horwitz, Andrew Lakoff, 

 Geoffrey Bowker, Christophe Adam, Chloe Silverman, Jesse Ballenger, 
 Emmanuel Delille…