Origem, lembrança e imagem em Naomi Kawase

O que se busca no passado como ‘origem’?

Naomi Kawase é uma cineasta japonesa que começou sua exitosa carreira em 1992 com o filme Embracing. Nesse documentário ela busca seu pai, que não via desde criança, tendo sido adotada por sua tia-avó materna e pelo marido dela, quando ambos estavam na faixa dos 65 anos (KAWASE, 2013; LOPEZ, 2008).

Todos os seus trabalhos circulam em torno de temas autobiográficos, nos quais família, vida e morte associam-se, produzindo, ao mesmo tempo, um apagamento relativo entre as formas documentário e ficção. Um pouco como visto em 33, de Kiko Goifman.

Sobre a ênfase no autobiográfico, trata-se de um ‘auto’ que não se fecha sobre si, abrindo-se para um fora que por vezes traduz-se nos seus filmes sob a aparência da natureza. Foi assim em Mogari no More, filme premiado no Festival de Cannes, em 2007 (KAWASE, 2013; LOPEZ, 2008). Esse ‘abrir-se’, aparenta expressar um limiar que, segundo Agamben (1993), “é um ponto de contacto com um espaço exterior, que deve permanecer vazio” (p. 53).

Com Chiri (2012), ela filma os momentos finais de vida de sua avó, como a chama, então com 95 anos. Nesse documentário, ao utilizar também imagens de documentários anteriores — Kawase dedica à avó uma trilogia — ela compartilha suas memórias, e aproxima, cuidadosamente, vida e morte. Não por outro motivo, dentre as imagens anteriores reutilizadas estão as do nascimento de seu filho, registradas em Tarachime (KAWASE, 2013; LOPEZ, 2008).

Ao aproximar os dois pontos extremos da existência, envolvendo sua avó e seu filho, Kawase parece apontar algo da fragilidade que residiria nessa ligação. Essa fragilidade, que diz respeito a todos nós, traduz-se no encontro com aqueles que zelaram por ela; com aqueles que decidiram zelar por ela já em um momento da vida em que isso talvez não fosse esperado. Ao falar da avó, fala de sua própria origem, tal como ao falar de seu filho, do nascimento deste, é a origem, mais uma vez, que se expressa, no momento final em que tudo é lembrança, conjunto infinito de imagens.


AGAMBEN, Giorgio. A comunidade que vem. Lisboa: Presença, 1993.
CHIRI. Direção Naomi Kawase. Tóquio/Paris: Kumie Inc, 2012. 1 filme (45 minutos): son., color.; 16mm.
KAWASE, Naomi. Naomi Kawase official site. Disponível em: http://www.kawasenaomi.com/en/. Acesso em: 11 jun. 2013.
LOPEZ, José Manuel. El cine en el umbral. Madri: T & B, 2008.


Fragmento da Tese de Doutorado ‘O que resta da adoção? O comum e o testemunho sobre a busca das origens’, defendida em 2013, no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (Unirio)

 

Publicado originalmente em Cartas do Litoral.