Justine ou os infortúnios da virtude

Resenha

Donatien Alphonse François, o Marquês de Sade, escreveu a primeira versão de ‘Justine’ em entre 1787 e 1788, quando estava preso na Bastilha. Ao todo, Sade permaneceu 13 anos na prisão. Duas versões ampliadas da história foram elaboradas em 1791 e 1797.

No livro acompanhamos as desventuras de Justine, que acaba por assumir o nome de Thérèse, na narrativa que ela endereça a Madame de Lorsagne. No momento em que o diálogo tem início, Thérèse está detida, sendo levada ao julgamento que provavelmente significará sua morte, como punição por todos os crimes de que é acusada.

A narrativa apresenta os infortúnios da jovem, os crimes que acabaram por ser cometidos por ela e contra ela, as desventuras sexuais que a marcaram sob a máscara de virtude que a todo custo tentava manter. A descrição dos suplícios de ordem marcadamente erótica mantém-se no limiar em que o sofrimento atroz deixa transbordar algo que nos interroga e não apenas causa horror. O marco inicial das desventuras de Justine é a morte do pai, a perda do patrimônio familiar e as tentativas da preceptora de conduzir a ela e a irmã para uma vida à margem da lei. Juliette aceita o destino para onde aponta a preceptora; a recusa de Justine leva-a à fuga.

O testemunho de Thérèse cobre sua vida dos 12 aos 26 anos. Em sua jornada o vício mostra-se indissociável da virtude, um encontrando o outro como resultado da fuga incessantemente empreendida. A cada etapa que é apresentada, uma marca acaba por ser infligida à protagonista, sendo o rastro de experiências vividas acompanhadas por palavras que insinuam as metáforas que Sade insiste em transmitir linha após linha. O clero, a aristocracia, os comerciantes, a magistratura, os ricos e os poderosos, todos eles aparecem como atores no circo de obscenidades em que o outro é reduzido a objeto de sua vontade.

Ao final, descobre-se que Madame de Lorsagne é Juliette, irmã de Justine, que repousava sob o nome Thérèse ao longo de quase toda a história. Madame de Lorsagne envolve-se na desventura de Thérèse e usa seu prestígio e o do marido para livrar a irmã das acusações, deixando-a livre para viver uma nova vida em sua companhia. Nessa fase, quando a fraternidade é restabelecida, Thérèse torna-se apreensiva e triste, vindo a morrer atingida por um raio durante uma tempestade. Depois desse episódio, Madame de Lorsagne deixa tudo para trás a fim de dedicar-se à vida monástica.

Quando as irmãs se separam na adolescência, Juliette aceita o caminho de vícios para em seguida encontrar uma vida de virtudes que alcança o ápice na imersão no claustro. Justine, ao recusar a vida de ilegalidades e sevícias, não deixou de vivê-las, morrendo quando não mais precisava submeter-se a elas.


MARQUÊS DE SADE. Justine ou les malheurs de la vertu. Groupe Yahoo Ebooks Libres et Gratuits, 1791/2003. 190 p.

Autor: jccoimbra

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