A criação do mural no bairro Santo Domingo Sávio, Medellín, Colômbia

Algumas palavras em tributo ao referendo colombiano, outubro/2016

Na parte posterior da igreja de Santo Domingo Sávio há um mural com mais de 380 nomes de pessoas assassinadas. Ele foi construído no mês de outubro de 2005, por iniciativa do sacerdote Julián Gómez junto com moradores do bairro, desmobilizados do grupo paramilitar Cacique Nutibara e ex–milicianos.

Entre os nomes incluídos no mural estão os vizinhos que morreram em confrontos entre grupos armados, por balas perdidas, por cruzar fronteiras invisíveis, entre outras circunstâncias. Ali também estão escritos nomes de homens e mulheres que fizeram parte ativa desses grupos e que em alguns casos foram responsáveis pelo assassinato dos vizinhos.

A construção do mural teve o objetivo de fortalecer os vínculos de identificação debilitados pelos enfrentamentos entre as diversas facções armadas. Nesse processo apresentaram–se discussões sobre quem mereceria ser reconhecido como vítima e que vidas deveriam ser lembradas; sobre a possibilidade ou impossibilidade de reconhecimento do dano e a vulnerabilidade como elemento comum.

Mas o que seria ali ‘fortalecer os vínculos de identificação’? Há que se vislumbrar naquele momento duas vias que o processo de identificação, associado ao fortalecimento dos laços sociais, poderia assumir.

A primeira estaria pautada na constituição (ou consolidação) de um ‘eles’ contra o qual um ‘nós’ adviria a partir da identificação com um ‘terceiro’. Trata–se de uma identificação vertical, na qual tem destaque um líder inatingível, que, por isso mesmo, propicia a identificação. Por ser inatingível não seria preciso perder–se em disputas imaginárias sobre quem assumiria o lugar de liderança, sendo a oposição firmada simplesmente entre ‘bons’ (nós) e ‘maus’ (eles). Se esse líder não se mostrasse inatingível, a fratria estabelecida correria o risco de desaparecer ante disputas para definir aquele que teria o direito de ocupar o lugar de ‘líder’ (Vidal, 2008).

A segunda via parte do trabalho de inscrição no mural como propiciando um processo de identificação horizontal, no qual não se estaria dissolvido em um todo (bons ou maus), nem haveria o primado de um individualismo exacerbado (o bom ou o mau, o líder inatingível). Tratar–se–ia neste caso de reconhecer na tarefa comum de inscrever os nomes no mural uma chave que permitiria a identificação entre aqueles que estivessem voltados a esse empreendimento. Tomando de empréstimo as palavras de Paulo Vidal (2008), poderia ser dito que no grupo que se constitui a partir do objetivo da tarefa de inscrição, ‘’o inimigo comum é antes de tudo um inimigo interno, que divide cada sujeito, que o leva a se perguntar quanto ao desejo que o habita’’ (s. p.).

O sacerdote Julián Gómez acreditava que a maneira de conseguir uma reconciliação dos moradores do bairro Santo Domingo Sávio era criar um pacto de não agressão entre os grupos armados e entre estes e os vizinhos. É importante esclarecer que a maioria dos integrantes desses grupos era de jovens nascidos no bairro, filhos, irmãos, amigos, colegas. Por isso o propósito da reconciliação, segundo o sacerdote, era criar novamente a ideia de comunidade, de família.

Na construção participaram jovens que faziam parte das atividades da igreja e alguns que pertenciam aos grupos armados, assim como familiares de pessoas assassinadas. Os jovens incluíram no mural tanto as pessoas que morreram assassinados pelos grupos armados, como os próprios integrantes desses grupos. Eles incluíram no mural os perpetradores dos crimes porque, em primeiro lugar, suas famílias levaram os nomes à igreja; em segundo lugar, os membros dos grupos armados que participaram da elaboração do mural quiseram incluir seus parceiros mortos, sem importar que fizessem parte dele representantes das milícias ou dos grupos paramilitares.

O mural tem na parte superior, com letras pretas, a frase ‘’En honor a nuestras víctimas. Que no nos vuelva a pasar’’. Essa frase foi dita por um dos participantes nas reuniões com os familiares das vítimas com o sacerdote Julián Gómez. Na parte inferior, também com letras pretas, está a frase ‘’Haznos señor instrumentos de tu paz’’. No centro há um desenho de três aves. Posteriormente, na parte superior do mural, foi colocado um Cristo de tijolo, com a frase ‘’El rostro de Cristo son los pobres. Puebla’’.

O lugar se transformou num espaço de comemoração. O mural não era só forma de expressão de um lamento, também era ação política, no sentido de que o mural demandava mudanças e reconhecimento do passado. Não obstante, a frase ‘’para que no nos vuelva a pasar’’ escrita nele, deixava clara a responsabilidade social do fato de lembrar. Não se tratava ali apenas do passado que estava inscrito, era também uma ideia de futuro coletivo. O mural assinalava um horizonte ético ao demandar que esses fatos não deveriam acontecer de novo (Margry y Sánchez–Carretero, 2011; Santino, 2011).

Todavia, no mural faltam nomes. Das 700 histórias compiladas por Julián na igreja, 382 nomes foram inscritos no mural. Ao menos um dos entrevistados afirmou que alguns familiares entendiam que seus filhos não deveriam estar no mural junto com os membros dos grupos armados porque eles não eram criminosos. Essa recusa nos leva à pergunta: o que acontece quando alguém decide celebrar os assassinos no mesmo espaço das vítimas?

Leia o post completo:

A criação do mural no bairro Santo Domingo Sávio, Medellín, Colômbia

O fragmento acima refere-se ao artigo A memória e a comunidade na experiência da vulnerabilidade. O mural de Santo Domingo Sávio, de Sandra Patrícia Arenas Grisales e José César Coimbra.

Autor: jccoimbra

a reader, above all

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.