Não há democracia onde houver desaparecidos. Entrevista especial com Suzana Lisboa. IHU

No ano passado, participei dos eventos alusivos aos 40 anos do golpe na Argentina. Sempre me pergunto: onde foi que erramos na nossa luta, depois da anistia, que ficamos tão sozinhos e isolados? Fomos nós, os familiares, que fizemos a mobilização, com a ajuda de um que outro. Voltei da Argentina com a certeza de que não fomos nós que erramos, foi a esquerda que nos abandonou.

A Argentina participou dos 40 anos do golpe, participou da marcha. Uma multidão se reuniu na praça, junto com as madres [Madres de Plaza de Mayo, grupo de mulheres que se organizaram para buscar notícias acerca dos filhos desaparecidos durante a ditadura militar na Argentina], com as avós [Abuelas de Plaza de Mayo, organização que tenta localizar crianças sequestradas ou desaparecidas durante a ditadura e devolvê-las às famílias legítimas], com os filhos. A multidão se retira e entra outra, com os partidos políticos. É impressionante.

Os partidos políticos fazem uma manifestação igual ou maior do que a que é feita pelas entidades de direitos humanos. Quem é que se manifesta a favor de alguma coisa aqui no Brasil? Não se reúnem dez pessoas. A esquerda brasileira nos abandonou, desde o começo, com raras exceções. A própria esquerda era contra nossa mobilização. Nós sempre fomos consideradas as impertinentes que sempre reclamam, que nunca estão satisfeitas com nada, sempre querem mais, sempre se manifestam contra isso, contra aquilo.

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