Uma brasileira na ajuda humanitária internacional

Débora Strauss Piñeiro realizou diversas atividades relacionadas à ajuda humanitária em Israel, durante sete meses entre 2015 e 2015. A seguir, ela nos narra como foram suas experiências no campo.

 

“Desde que me entendo por gente quis entender o ser humano em suas singularidades […] e, em especial, a partir de suas culturas […]

Sempre gostei muito de viajar e em todas as viagens que fiz, acredito ter feito ao menos um “amigo”. Era sempre assim: havia alguma estória que me chamava a atenção e eu queria me aprofundar mais […]

Quando me tornei psicóloga, o meu maior objetivo profissional era o de trabalhar como Psicóloga Jurídica […]. Entretanto, um sonho de menina era trabalhar para o Médicos Sem Fronteiras – MSF. Não sei se eu me aventuraria em viver anualmente em missões de longos meses. Mas, definitivamente, ao menos uma vez na vida eu teria que participar de uma missão humanitária com o MSF.

Ao pesquisar no site do MSF, descobri que precisaria vivenciar uma experiência internacional de trabalho voluntário antes de efetivamente me candidatar a uma vaga ali. Então, assim o fiz. Em novembro de 2014 decidi participar de um programa do MASA (órgão do governo israelense) chamado Community Involvement (envolvimento com a comunidade), em Ramla (cidade mais pobre de Israel e de grande população árabe) […]

E o que fazer nesse “envolvimento com a comunidade”? ABSOLUTAMENTE TUDO! De fato o que os voluntários fazem é possibilitar que aquela cidade cresça de forma mais igualitária, que seus cidadãos consigam coexistir de forma mais harmônica e respeitosa e que novos paradigmas sejam criados. Eu trabalhei em lugares que os turistas que vão a Israel não costumam ver:

  1. Kitchen’s soup (Sopa da cozinha). Local onde os idosos mais pobres da cidade podem almoçar todos os dias. Dali eles levam farnel de comida e frutas para passarem o resto do dia. Preparávamos o farnel, servíamos a comida e tentávamos conversar com os idosos.
  2. Moadonit Yad Rachel (Abrigo de medidas protetivas). Esse era o trabalho que mais me estimulava! Talvez por ser o mais próximo do que eu já tinha feito e estudado no Brasil; talvez porque eu tenha sido bastante afetada por todas as estórias de cada uma daquelas crianças e famílias. Basicamente são crianças entre oito e 13 anos que se encontram em algum tipo de situação de risco: abuso de drogas por parte dos pais; pais que estão em alguma base militar; pais que morreram na última guerra em Gaza, maus-tratos etc.
  3. English Center (Centro de Ensino da Língua Inglesa). Essa foi uma proposta do prefeito da cidade, a fim de promover a coexistência pacífica entre adolescentes judeus e árabes. Criou-se um moderníssimo curso de inglês numa cidade que tem pouquíssimos recursos. Ali o objetivo era que adolescentes árabes e judeus pudessem estudar, aprender juntos. A ideia é excelente, porém, na prática, não é o que acontece. As aulas são ministradas em turmas separadas, inclusive em horários separados, com uma distância significativa de tempo entre uma turma e outra para que judeus não se encontrem com árabes. Era muito triste estar quase diariamente nesse local, me esforçando para que o assunto ‘convivência pacífica’ fosse ao menos abordado (afinal o centro foi criado para a promoção da coexistência) e isso era praticamente impossível.

Nesse local eu e um colega recebemos a ameaça de um aluno árabe: ele nos mandaria para o DASH (sigla em árabe para ISIS) a fim de que cortassem nossas cabeças. Isso aconteceu após termos tentado explicar em inglês algo que ele não havia compreendido e, quando percebemos que ele continuava sem entender, tentamos então em hebraico. Isso foi muito ameaçador para ele e sua reação foi nos ameaçar também. É muito desafiador perceber como há discursos que já estão totalmente naturalizados na fala de crianças e adolescentes. Eles reproduzem o que ouvem em casa e o que veem na televisão.

  1. Jardim de infância. Aqui, o trabalho consistiu basicamente em atuar como assistente da professora da educação infantil de crianças judias pobres, filhas de emigrantes de países como Peru e Colômbia, que resolveram tentar a vida em Israel. Nesse jardim de infância havia uma peculiaridade: há em quase todo o país os Absorption Centers (centros de absorção) de crianças etíopes. Todavia, nesse jardim de infância, além das crianças etíopes, havia dois meninos israelenses, mas de origem etíope. Quando eu soube disso, achei ótimo! Imaginei que eles já estivessem muito bem adaptados e incluídos na sociedade. Para minha surpresa, ao chegar, minha primeira “atribuição” como psicóloga foi a de “descobrir” o problema deles, afinal eles não interagiam com as outras crianças, mostravam-se bastante apáticos, desmotivados, não seguiam em conjunto as tarefas e brincadeiras oferecidas ou solicitadas pela professora. O “pré-diagnóstico” da professora era de que eles teriam TDAH ou serem autistas. Com essas informações, resolvi brincar com eles. Um, de fato, parecia ter maior dificuldade em se concentrar, mas daí não havia nada que se pudesse concluir em poucos encontros.

Nos momentos que compartilhávamos, eles sempre riam comigo, brincavam, falavam e me puxavam para fazer todas as atividades que a professora solicitava, sempre longe dos coleguinhas. Vale salientar que, apesar de israelenses e judeus, esses meninos são negros numa escola majoritariamente branca, eles são negros num país majoritariamente branco. Comecei a observar a atitude de algumas das outras crianças e da professora. Parecia haver, de forma velada, um preconceito racial. Se eles não topavam fazer as tarefas ou brincar em conjunto, simplesmente eram deixados de lado. Se eles não aceitavam a comida oferecida, um prato era colocado numa mesa distante do refeitório para que eles comessem o que quisessem e como quisessem. Ali não poderia se falar em preconceito religioso, afinal eles são judeus, mas seus pais são etíopes, seus avós são etíopes e eles são “diferentes”. E aquela professora estava muito assustada e sem saber lidar com isso. Durante todo o tempo que trabalhei na escola, meu maior esforço era o de tentar fazer a professora entender que eles não tinham, em princípio, nenhum problema psicológico ou neurológico. Eles estavam, na realidade, reagindo à hostilidade que sofriam. Não foi um trabalho muito bem sucedido uma vez que, até meu último dia na escola, infelizmente, a professora não parecia se sensibilizar com aquilo que eu tentava trazer. Tinha muita dificuldade em ouvir e tentar novas abordagens de inclusão daqueles meninos. No último dia, uma “especialista” em autismo foi chamada à escola para avaliar os meninos. Tentei, junto a minha coordenadora um contato com a psicóloga que foi à escola. Segundo informações colhidas, na interpretação dela, eles tinham mesmo algum transtorno do espectro do autismo e, provavelmente, seriam medicados.

  1. Movimentos Sociais. Participamos em grupo de uma manifestação que houve em Tel Aviv criada pela militância de judeus etíopes contra os baixos salários e desemprego. Essa manifestação foi barbaramente atacada pela polícia. Ficamos um pouco sem respostas num primeiro momento. Passados alguns dias, nossos coordenadores entraram em contato com um dos centros de absorção de etíopes (até o nome dado incomoda! Se eles são judeus, e o Estado é judeu, por que ainda se referir aos mesmos como etíopes? A geração mais nova nem é etíope, eles são israelenses) e conseguiram marcar uma reunião com duas representantes do movimento. A reunião durou duas horas e foi muito interessante perceber como o preconceito racial, por diferentes motivos, em diferentes lugares, está presente, mas há o preconceito religioso também, que aparentemente está mais velado, mas é tão enraizado e naturalizado quanto o racial.

Nessa reunião, uma das meninas insistia em dizer que não entendia como o governo era tão bom com os etíopes que iam para o Israeli Defense Forces – IDF (o exército israelense), mas tão mau com aqueles que precisavam de melhores salários, de empregos e dignidade.

Era difícil para ela pensar que há um interesse do governo em ser “bonzinho” com aqueles negros etíopes que são enviados para o combate, enquanto os etíopes civis, mesmo tendo excelente formação, somente trabalham limpando latrinas e como lixeiros. Essa mesma menina, ao discursar sobre como se sentia menosprezada devido à cor de sua pele, foi indagada por um dos voluntários se ela se compadecia da dor dos árabes que, assim como ela e tantos outros judeus etíopes, são israelenses, porém apenas com uma religião diferente da majoritária. Nesse momento ela se transformou. Pra ela, eles não devem ser humilhados, mas jamais devem ter os mesmos direitos que ela, pois, afinal, ela é judia.

Durante o envolvimento com a comunidade, uma das nossas funções era frequentar os diferentes centros em Ramla. O centro de cultura etíope, criado dentro de um centro de absorção e mantido pelos próprios usuários, era o lugar que nos possibilitava ouvir as mais tristes histórias de refugiados e filhos de refugiados vindos do Sudão.

Ouvíamos inúmeras histórias como a de uma senhora que vivia sob o medo da Guerra Civil que ocorria na Etiópia à época da primeira leva de judeus etíopes que puderam migrar pra Israel. Assim que ela teve seu quarto filho, ela e o marido decidiram fazer Aliá (Lei do Retorno do povo judeu). A família caminhou meses até o Sudão; uma das filhas teve que ficar no caminho porque encontrava-se doente e não poderia mais seguir com eles; ela e o marido tiveram que se separar quando foram presos ao chegar no Sudão. Após meses de angústia nas prisões sudanesas, conseguiram fugir para um campo de refugiados. Todavia, ali era um local sujo, não havia grande oferta de alimentos e as crianças não podiam fazer barulho para não chamar atenção. Quando a Cruz Vermelha foi resgatá-los, havia um forte esquema para que isso fosse feito de madrugada, exatamente para não chamar nenhuma atenção.

Na escolha das pessoas que seguiriam com a Cruz Vermelha para pegar um avião, ela teve que fingir-se grávida, com panos dentro de sua roupa para conseguir seguir com os filhos, mas o marido ficou. Essa senhora conta que, ao avistar o aeroporto que a levaria para Israel ela acreditava que já havia chegado a seu destino. Assim, beijou o chão do aeroporto acreditando que já se encontrava na “terra prometida”. Ao chegar no aeroporto de Israel, ela disse que não sabia se estava feliz ou triste. A Cruz Vermelha os levou até o aeroporto, de lá eles seguiram para os campos de refugiados. Eles não conseguiam se comunicar. Não entendiam a língua e ninguém falava o dialeto dela. Até hoje essa senhora não fala hebraico. O marido faleceu ao chegar em Israel. Ele estava muito doente. A única boa notícia é que, 20 anos depois, ela reencontrou a filha deixada para trás no deserto do Sudão.

  1. Neve Shalom (Oasis de Paz). Quando meu trabalho em Ramla acabou, decidi ficar mais um tempo em Israel e tentar um novo trabalho voluntário no Neve Shalom, que é uma organização que trabalha para a coexistência entre árabes e judeus e que, atualmente, possui 60 famílias coexistindo em um mesmo vilarejo. É muito bonito de ver, entretanto, nas poucas vezes que fui ao vilarejo para ajudar com coisas simples como ser tutora de uma criança que precisava de auxilio com o dever de inglês ou ajudar a trocar as roupas de cama dos funcionários, percebi que ali não se falava de política. Isso me chocou muito. De fato, essas pessoas todas, aparentemente, estão convivendo muito bem, e não importa a que religião ou etnia você pertença, mas como seria possível transpor isso para o “mundo real” em que a política é que manda?
  2. Pintura de abrigos. Sderot é uma cidade onde bombas e mísseis fazem parte do dia-a-dia dos moradores. Lá fazíamos um trabalho em grupo de pintar os abrigos antibombas dos parques para torná-los mais coloridos para as crianças. É uma cidade triste, pois parece que lá as pessoas realmente já se acostumaram a viver com sirenes constantes anunciando a chegada de bombas. O medo é visível, o que gera reações psicológicas como ansiedade e depressão em face de um futuro muito incerto.

Como parte do programa, participamos de inúmeras viagens por todo o país e também fomos à Palestina com a organização Breaking the Silence. Todas as viagens mostraram um país muito bonito e absolutamente cheio de história. No entanto, era-me impossível não pensar como um país que foi fundado por refugiados, para refugiados, poderia se eximir de dar conta, sendo até mesmo negligente, da demanda de inúmeros refugiados africanos que estão procurando uma pátria com o objetivo de conseguir uma vida mais digna e menos sofrida. Tudo isso me deixou com muitas dúvidas. Mas uma coisa é certa: sigo acreditando que um Estado que foi criado por uma esquerda socialista, deveria respeitar o acordo de Oslo, respeitar seu povo e aqueles que precisam viver em seu solo, bem como todos que ali habitavam antes do estabelecimento do Estado de Israel, nunca desistindo de promover a igualdade entre seus habitantes”.

 

Débora Strauss Piñeiro é psicóloga formada pelo IBMR; especialista em Psicanálise de atenção à infância, pelo Hospital São Zacharias da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, e com especialização em andamento em Psicologia Jurídica pela UERJ.

Originalmente publicado em Cartas do Litoral

 

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Autor: jccoimbra

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