Nada mais foi dito nem perguntado: Resenha

CARVALHO FILHO, Luis Francisco. Nada mais foi dito nem perguntado. São Paulo: 34, 2001. 88 p.

Luis Francisco Carvalho Filho mobiliza sua experiência de advogado criminalista para criar a matéria-prima para esta outra experiência que nos propõe: percorrer o mundo judicial, em particular aquele que gira em torno das rotinas forenses, a partir da literatura.

É nesse intervalo entre mundo judicial e literatura que a escritura do livro encontra seu lugar. É nesse intervalo também que podemos reconhecer um dos objetivos do autor: realizar uma investigação sobre os arranjos da linguagem e seus limites.

Esse objetivo aparece explicitamente no conto ‘Licença’. Ali, um escritor dialoga com um juiz sobre os motivos de estar presente àquela audiência. O mal-estar que se instala entre as personagens explicita os enganos a que estamos sujeitos sob o véu da linguagem. Os entendimentos sobre o que é possível e o que não é; do que é legal ou não; do papel que se assume para o outro: o que você faz aqui afinal? Ou, talvez, o que você quer de mim? E ainda: o que eu represento para você?

Nesse cenário passamos ao conto seguinte, ‘Caveirinha’. Os enganos que permeiam a recepção pelo juiz do testemunho que a ele se dirige são acentuados pelo advogado que participa da audiência. Nesse conto, sublinha-se que entre o que se diz e o que se ouve resta quase que um abismo. Nesse espaço, o que se instaura são os significados que se tecem nessa abertura. Não é por outro motivo que o ponto comum dos contos é a suspensão do momento de decidir. Nunca sabemos sobre a sentença do juiz.

Essa sequência, que podemos entender como formando o núcleo dos treze contos que compõem o livro, completa-se com ‘Cigarro’. Nesse conto, o depoimento de um assistente técnico e os esclarecimentos sobre seu parecer, que colocam em xeque o laudo elaborado por peritos em torno da saúde mental de um acusado e de sua capacidade de se responsabilizar por um ato, também é encenada a distância que a linguagem instaura nas ações humanas. Nesse caso, é o passado e o seu sentido que vai sendo desenhado e redesenhado nas palavras do especialista, bem como nas interrogações que lhe são dirigidas.

Cada um dos contos é precedido de uma breve descrição que nos prepara para a narrativa que virá. É contra esse pano de fundo que os diálogos encontram expressão. Mais uma vez, nesse vão, entre a descrição e o diálogo, entendemos o porquê do fórum mostrar-se como eixo da histórias apresentadas. Nessas páginas, ele não é apenas “edifício que abriga o Poder Judiciário”, como o Houaiss nos ensina. Ele é também ‘reunião’, instante em que as palavras criam um novo mundo, aquele em que, por exemplo, um advogado pode fazer-se escritor, mostrando-nos o que ocorre aquém e além das audiências judiciais.

Publicado originalmente em Goodreads.

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Autor: jccoimbra

a reader, above all

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