A vida não é justa: Resenha

PACHÁ, Andréa. A vida não é justa. Rio de Janeiro: Agir, 2012. 192 p.

A autora, juíza de direito, apresenta, de uma perspectiva inspiradora, os dramas e os traços que permeiam os casos que buscam solução no judiciário, em particular aqueles relativos às varas de família.

‘A vida não é justa’ é o melhor título possível para esse livro que nos mostra, caso após caso, a defasagem incontornável (e a obrigação de não ceder ante isso) entre o que se espera do judiciário e aquilo que ele pode oferecer.

O que em outra chave poderia ser o reconhecimento de uma impotência, assume no texto outro valor. Andréa Pachá extrai da impossibilidade de atendimento das demandas que lhe são dirigidas enquanto juíza o único lugar a partir de onde sua ação apresenta alguma eficácia.

É nessa parcialidade, no reconhecimento de que a vida ultrapassa o juízo, é nesse interstício entre o muito e o pouco, o exíguo e o excesso da ação, que a juíza obtém eficácia para sua intervenção.

Esse reconhecimento cobra um preço que é preciso pagar: a angústia de um espectador que não se limita a esse papel e de um ator que tem um papel muito bem delimitado nesse cenário.

É nesse equilíbrio delicado que Andréa Pachá nos deixa entrever os deveres de seu ofício e os descaminhos que expressam a força da vida.

É sob esse plano que o fim do amor nos é narrado em uma série de casos e ali também as hesitações e os recomeços encontram vez.

A relação entre pais e filhos, as indagações sobre a paternidade e a maternidade, os medos e apreensões sucedem-se sem que sejamos levados a crer em uma repetição.

É o caso a caso que se desenha nas páginas do livro, sem que ali sejam encontradas discussões doutrinárias ou jurisprudenciais. Trata-se, afinal, de um testemunho que se faz nas letras que nos alcançam.

As surpresas em torno das incertezas da identidade, o susto de descobrir-se outro e o choque (quase) inevitável com aquele que se situa ao nosso lado, um íntimo marcado ali por uma estranheza assustadoramente radical, tudo isso repousa nas linhas traçadas pela autora. O livro é um convite a que olhemos a vida e a justiça da perspectiva que revela a incongruência inescapável entre uma e outra e a beleza que reside nisso [JCC].

Publicado originalmente em Goodreads.

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Autor: jccoimbra

a reader, above all

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