O luto, a perda e a memória: Uma nota a partir Still Life, de Jia Zhangke

I propose to consider a dimension of political life that has to do with our exposure to violence and our complicity in it, with our vulnerability to loss and the task of mourning that follows, and with finding a basis for community in these conditions”. [Judith Butler, Precarious Life, p. 19]

Still Life é a tradução dada ao título original desse filme de 2006, premiado em Veneza, 三峡好人 [Sānxiá hǎorén], que literalmente significa Good people of the Three Gorges.

O filme apresenta-nos um testemunho que se expressa por duas personagens que não se encontram jamais, embora estejam no mesmo lugar, durante um mesmo período, e venham de uma mesma região.

Han Sanming e Shen Hong, um mineiro e uma enfermeira, saíram de Shanxi para chegar a Fengjie, cidade que está sendo parcialmente submersa por conta da construção da hidrelétrica e barragem de Três Gargantas. Ele busca principalmente por sua filha e também por sua ex-esposa, depois de mais de dez anos sem contato; ela procura seu marido, que está em Fengjie a trabalho, há dois anos praticamente sem notícias.

Os caminhos seguidos pelas duas personagens são tortuosos. O objetivo a que se propõem não é alcançado em um primeiro momento. É preciso que errem, que vaguem pela cidade percorrendo cenários que ora se mostram em decomposição, ora revelam a nova face que o desenvolvimento econômico poderia significar.

Cada uma dessas personagens principais trafega por um desses dois espaços, os quais por vezes se entrecruzam, sobretudo, através de personagens secundários, embora Han Sanming e Shen Hong jamais estejam ao alcance um do outro.

Han Sanming para encontrar sua antiga família precisa estabelecer uma rede de sociabilidade que o leva da posição de mineiro para a de operário da construção civil. O trabalho dele é demolir prédios e estruturas que serão deixadas para trás. As pistas para chegar a sua família aos poucos adquirem consistência e o momento do encontro faz-se realidade: no diálogo com sua ex-mulher sabe que a filha de dezesseis anos está trabalhando em outra cidade. O pedido por uma foto dessa filha permanece no ar, sendo a imagem dela ainda um sonho, mas no diálogo restabelecido descobre que a ex-mulher está sozinha, trabalhando para sobreviver. A troca de palavras entre os dois permite que o passado seja ressignificado e os motivos da separação, interpretados. O que antes era um quase desespero da perda e da busca, o quase fracasso do encontro, torna-se o desejo de refazer a aliança, havendo para um e outro, novamente, a oportunidade de serem um casal.

Contudo, uma dívida do irmão da ex-mulher de Han Sanming impede que o casal se recomponha imediatamente. Han Sanming assume essa dívida, que será paga em um ano, para então ter o direito de ter novamente sua mulher ao seu lado. O passado reencontrado em nova chave é atravessado por um passado que não sendo o seu, impõe a Han Sanming o adiamento do presente em que sua ex-mulher seria já sua novamente.

Han Sanming volta a sua cidade natal para trabalhar nas minas, uma vez que lá, assim, ganhará mais, apesar de sofrer mais fortemente risco de vida nesse tipo de trabalho. O passado que talvez pudesse ser visto como uma repetição no presente (o casal refeito), mostra-se diferente não apenas por não se concretizar de fato (o presente foi adiado para um futuro próximo), mas também por expressar a reelaboração do modo como eles haviam se tornado um casal. No passado, Han Sanming comprou sua esposa e sentia-se dono dela e ela, uma coisa para ele; agora, ele precisa adquirir o direito de tê-la ao seu lado porque ela também assim o deseja. Em um cenário em que tudo parece ruir, desmoronar, terminar (um colega de Han Sanming morre em um acidente, prédios desabam, tudo acaba), o passado é reencontrado para então ser iniciado novamente, quase como se fosse uma primeira vez.

Shen Hong igualmente demora para encontrar seu marido e a vontade de não mais estar ali aflora. Um prédio decola como uma nave espacial, partindo da Terra, da mesma forma como no dia seguinte ela iniciará outra vez sua jornada. A tentativa de encontro do marido tem por base uma rede de sociabilidade que se estabelece para esse fim, mas sem que para isso ela deixe de ser a enfermeira que é em sua cidade natal (inclusive ajudando no cuidado dos ferimentos do amigo de Han Sanming que se envolveu em uma briga).

Uma das personagens que a ajuda nessa empreitada é um arqueólogo, que fala dos artefatos do passado milenar que ali são encontrados, sobrevivência do passado marcando o presente. Quando Shen Hong se depara com seu marido, a estranheza. Em seguida, o comunicado: ela quer divorciar-se dele. O cenário é o de uma cidade em transformação, cidade moderna, carros novos. É ali que o passado se rompe no pedido de Shen Hong. Ela conheceu um novo amor e vai partir com ele para Xangai. O passado é reencontrado para que a ele um fim possa ser dado.

 

A contemplação aparentemente é uma marca de Jia Zhangke e nesse filme ela é muito presente. A descrição adquire um alto valor na narrativa visual e o homem é medido contra aquilo que a todo instante o ultrapassa: a natureza, o progresso, o passado, o futuro, o amor. Ao lado disso, cabe frisar que Still life é também ‘natureza morta’ (representação de objetos inanimados na pintura) e ‘vida parada’. Que o título do filme em português seja ‘Em busca da vida’ não parece ser uma inadequação, mas uma ressonância dos significados presentes nas demais versões existentes.

A ponte é elemento de destaque na narrativa, apresentando-se de vários modos. Ela é a figura que encarna os três registros sobre os quais o filme é narrado: o da natureza e o das construções humanas; o da China (entre o passado milenar e o futuro; entre a probreza econômica e a riqueza) e o dos sujeitos (que se equilibram entre a ação e a sujeição).

A ponte se diz assim como forma de ligação física entre dois lugares; como ligação entre o passado da China e o seu futuro (a ponte que custou milhões de dólares e que estava relegada à escuridão torna-se iluminada e revela o custo de sua construção) e também como ligação entre passado e presente que se abre para o futuro das personagens.

A ponte é passagem, memória que se diz como perda e como expressão do que virá, futuro que guarda os seus segredos para si (o que será da China? Como ficarão as pessoas de Fengjie com o término da barragem? O que restará da história da cidade, que remonta há mais de 2000 anos? Han Sanming retornará para encontrar sua mulher e pagará a dívida assumida? Shen Hong será feliz em sua nova união?).

Daí, em uma das últimas cenas, que mostra o início do retorno de Han Sanming para Shanxi, ao fundo, uma ponte quase invisível: alguém se equilibra em um cabo, na travessia entre dois prédios. Tudo está por acontecer, ainda, e pouco resta ao alcance da decisão humana. Esse pouco que resta, contudo, é o que faz as personagens darem o passo que permite reler o passado para encontrar um futuro, que permanece à frente como um horizonte a ser percorrido.

 

 

 

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Autor: jccoimbra

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