Sobre o Guia de Adoção: 4 Perguntas para Solange Diuana

Solange Diuana é Psicóloga, Terapeuta de Casal e Família, Perita Judicial e Coordenadora do Grupo de Apoio Café com Adoção. Ela também é uma das organizadoras do livro ‘Guia de Adoção — no Jurídico, no Social, no Psicológico e na Família’. Abaixo, um resumo de nossa conversa sobre essa publicação.

  1. Como surgiu a ideia do ‘Guia de Adoção – no Jurídico, no Social, no Psicológico e na Família’ e qual a importância dessa publicação?

A ideia do Guia surgiu a partir do convite da editora Roca à Cynthia Ladvocat, então presidente da Associação de Terapia de Família do Rio de Janeiro (ATF/RJ), para organizar um livro cuja temática fosse a Família. Cynthia decidiu abordar as famílias adotivas e me convidou para dividir essa tarefa com ela, pois ambas tínhamos experiência profissional na área. Como resultado de nossas trocas e reflexões durante a elaboração do livro, surge a decisão de incluir textos relativos às diferentes áreas que atuam direta ou indiretamente com adoção, além da nossa, a Psicologia. Começamos a pensar nos temas importantes a serem abordados e nas pessoas que poderiam desenvolvê-los. Assim, convidamos profissionais do Direito, da Psicologia, da Assistência Social e, ainda, da Antropologia para apresentar questões teóricas e práticas sobre a adoção em diferentes abordagens e campos de atuação. A concepção do trabalho, então, passa de um livro sobre família, conforme sugerido pela Roca, ou sobre famílias adotivas, conforme pensado por Cynthia, para um Guia cujo objetivo é orientar desde profissionais, pesquisadores, professores, estudantes até iniciantes e leigos interessados em tema tão vasto e abrangente quanto apaixonante.

  1. O livro conta com uma gama variada de autores que exploram aspectos bastante diversos da adoção. O que mais te surpreendeu diante do que foi produzido para o Guia?

Muitas foram as surpresas: a primeira foi a receptividade dos colaboradores que prontamente aceitaram nosso convite e, apesar de suas agendas abarrotadas de trabalho, enviaram seus textos no prazo determinado pela Editora.

Além disso, surpreendeu-nos a criatividade dos colaboradores que apresentaram projetos de qualidade exemplar e experiências, desenvolvidos no mais alto nível acadêmico e profissional. Em cada texto é possível perceber a dedicação e a energia que desprenderam para realizar seu trabalho. Também é possível perceber o envolvimento pessoal de quem milita com adoção, que ultrapassa o exercício meramente profissional.

Não posso deixar de mencionar a grata surpresa com o cuidado gráfico dispensado ao nosso Guia pela Editora Roca. E ainda parabenizá-la por ter-se unido ao Grupo Gen enquanto transcorriam os trabalhos de construção do Guia, tornando-se ainda maior e mais respeitada no mercado editorial. Foi outra boa surpresa.

Mas, confesso que a maior de todas as surpresas foi ter o Guia em minhas mãos e ver o resultado final de tanto trabalho e empenho de todos os envolvidos. A qualidade da impressão e da encadernação me deixou imensamente satisfeita; o conteúdo é do mais elevado nível técnico, e a autoria é dos mais renomados especialistas no assunto da Adoção. Acredito que o Guia será de significativa relevância para quem trabalha com adoção.

  1. Considerando seu percurso no campo da adoção, quais são os desafios dessa prática social hoje?

Acredito que os desafios de hoje não diferem muito daqueles de quando iniciei minha prática há mais de uma década, qual seja, transferir para o espaço jurídico a escuta respeitosa e cuidadosa, própria da nossa práxis clínica, visando contribuir de forma efetiva com os operadores da Justiça e com as partes envolvidas nas ações judiciais, ou seja, as famílias e os juridicionados. Talvez a diferença maior esteja na aceitação do psicólogo, pois se antes o profissional psi precisava conquistar espaço para realizar seu trabalho, hoje, este espaço lhe é oferecido e ele é convocado a compor a equipe técnica em benefício daqueles que buscam a Justiça para realizar seus projetos e solucionar seus conflitos e impasses.

  1. Que diferenças poderiam ser citadas, e quais você considera as mais importantes, quando se compara a prática atual da adoção no Brasil e aquela que se realizava quando seu percurso nesse campo teve início?

Comecei a trabalhar com adoção em 1997 quando o Estatuto da Criança e do Adolescente ainda era uma criança e, talvez por isso, pouco conhecido até pelos profissionais que trabalhavam na Justiça. O Estatuto completou 24 anos de idade e hoje consta do currículo de muitas Universidades de Direito e Psicologia sendo, até mesmo, discutido nas escolas de ensino fundamental.

Percebo que se a maioria das pessoas não conhecia o ECA quando comecei, hoje muitos vêm com informações colhidas na internet e com respostas prontas, falando o que acreditam que gostaríamos de ouvir nas entrevistas realizadas para habilitação e adoção.

O número de processos de adoção aumentou assustadoramente em decorrência, dentre inúmeros fatores, do adiamento do projeto de maternidade, do exemplo de celebridades e da diminuição do preconceito social em relação à adoção. Com isto, provocou um aumento de grupos de apoio à adoção, os quais ajudaram a dar visibilidade ao tema através da sua atividade de informar, orientar e acolher os interessados em adoção.

Os procedimentos empregados para a habilitação também foram repensados e modificados com o objetivo de levar os requerentes a refletir, discutir e se autoavaliar quanto ao genuíno desejo de adotar uma criança com todas as implicações que a adoção encerra.

Houve mudanças na Lei que obrigaram os operadores da Justiça e os técnicos do judiciário a mudar suas posturas. Acredito que o trabalho desenvolvido e as mudanças legais proporcionaram uma flexibilização do perfil da criança desejada e as adoções tardias e de grupos de irmãos são mais aceitas hoje.

O Plano Mater [no caso do Rio de Janeiro] colocou foco sobre cada criança abrigada e, de certa forma, implicou a família extensa nos cuidados com a criança. Para além de implicar as famílias extensas, contribuiu para dar visibilidade à situação das crianças. Caso fique claro que essa família biológica, de origem ou extensa, não tenha condições de assumir aquela criança, ela é mais rapidamente colocada numa família substituta. Com o Plano Mater, acredito que, com raras exceções, não teremos mais os conhecidos “filhos do governo” – casos de crianças que entravam pequenas no abrigo e saíam aos 18 anos, despreparados para viver na sociedade.

Para finalizar, percebo que a adoção vem sendo mais estudada, valorizada e pesquisada no âmbito acadêmico e os resultados obtidos, muitos registrados no Guia de Adoção, nos proporcionam mais segurança na realização do nosso trabalho [JCC].

Publicado originalmente no Medium

 

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Autor: jccoimbra

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