Era uma vez em Anatólia_resenha

Este filme, dirigido pelo turco Nuri Bilge Ceylan, passou rapidamente pelo Rio de Janeiro deixando um rastro de interessantes resenhas e comentários, bem como de interrogações junto àqueles que se entregaram à sua fruição.

A resenha elaborada por Manohla Dargis, do New York Times, talvez seja uma das que melhor delimita o que está em jogo no filme. O título que escolhe para seu comentário é: “One Search for a Body, Another for Meaning” e em suas primeiras linhas encontramos estas palavras: “A metaphysical road movie about life, death and the limits of knowledge[…]”.

Na primeira cena, em uma noite de tempestade, três homens conversam e bebem no que aparenta ser uma oficina mecânica. Um cão está próximo a eles. Na sequência seguinte, madrugada, um batalhão de soldados, um perito e um promotor de justiça percorrem o interior do país em busca de um corpo. Dois dos homens da cena anterior estão presos e vagam com o batalhão a procura do corpo do outro homem que naquela cena com esses dois conversava.

Os homens não recordam onde o corpo está enterrado. A polícia duvida disso e pressiona os dois para que digam a localização dos restos mortais. A escuridão e o cansaço tornam tudo mais impreciso. A certeza do assassinato e a certeza da autoria não se fazem acompanhar do corpo que as ratificariam. Os temas da morte, da doença e da finitude acompanham todos os participantes dessa jornada. O interrogatório policial não se revela suficiente para romper a escuridão que dita o capricho da memória. Nenhuma palavra é dita, até ali, sobre os motivos do crime.

O batalhão e os criminosos descansam em uma pequena vila, sendo acolhidos pelo prefeito local. Ali o discurso entre as autoridades, o prefeito e o promotor, toca em alguns pontos do cotidiano da Turquia e reiteram aspectos que já haviam sido pronunciados, os quais apontam para esse lugar e tempo de transição, entre o velho e o novo, entre os vivos e os mortos, entre o Oriente e o Ocidente, entre o passado e o futuro (‘faremos parte da União Europeia?’). A Turquia, ali, encarnaria esse ponto intermediário, de difícil precisão, que se traduz também na busca, às cegas, que todos estão a realizar.

Nessa vila, o discurso sobre a morte e o fim, sob a forma da necessidade de se reformar o necrotério local, do abandono da vila pelos mais jovens, é subitamente atravessado pela presença da filha do prefeito com sua beleza e frescor. A interrogação das personagens é a mesma: como ela pode estar ali? Como ela pode ser fruto daquela família? Poderíamos dizer, como o lugar que expressa decadência e ruína pode guardar uma joia que aparentemente aponta para outra direção ou origem?

É depois desse descanso que as peças encontram seu lugar, ainda que com dificuldade. Naquilo que já seria quase o amanhecer, depois de idas e vindas em que o discurso policial revela sua impotência em desvelar a verdade, o corpo é encontrado. Um cão o vela.

A retirada do corpo conta com sua próprias exigências. Mais uma vez o saber mobilizado mostra seu limite e o resultado, ainda que satisfatório já que o corpo é levado para a cidade, não é exatamente o que era esperado.

A localização do corpo, já no início da manhã, revela uma passagem para o que acaba por ser o segundo tempo do filme. A luz do dia traz alguma respostas e o discurso policial é substituído pelo discurso científico na interrogação sobre o crime. É o momento de ação do legista, o mesmo que acompanhou toda a jornada, o mesmo sobre o qual já sabemos ter vivido o fim de uma experiência amorosa.

Antes mesmo do início da necropsia, algumas pistas sobre os motivos do crime são dadas, as personagens as conhecem. O exame tem início, sem antes, mais uma vez, a discussão sobre as condições do trabalho, sobre as condições inadequadas para se obter a verdade que o corpo poderia conter, sobre a inadequação dos instrumentos para esse fim.

Nesse momento prévio ao exame do cadáver, um diálogo entre o perito e o promotor. Uma retomada de algo que havia sido esboçado na noite anterior. Uma conversa em que, novamente, vida e morte, tocam-se. De súbito, uma revelação. O que era dado como certo, uma doença como causa da morte de uma personagem importante para o promotor de justiça, desmorona. A possibilidade de suicídio e de toda uma releitura do que teria sido certa relação amorosa encontra sua vez. A certeza dogmática do direito esboroa-se diante do discurso científico. Mas é esse discurso científico, ao mesmo tempo, que se mostra ancorado num ponto sem resposta. Sabe-se que o casamento do perito chegou ao fim e que uma nostalgia, uma indagação sobre isso permanece sem resposta.

É nesse contexto, que a necropsia tem início, com a saída do promotor de justiça. É ali, diante de certa contrariedade do auxiliar que colabora com o perito, prenunciada na reclamação sobre as condições de trabalho e na resposta que obteve, que um pouco do sangue do morto atinge o corpo do perito. Os motivos pelos quais isso ocorreu, são claros no filme.

Nesse instante, o incidente parece lembrar que o equilíbrio entre as forças em jogo é extremamente delicado. Antes, a turba já teria tentado matar o suspeito do assassinato…e ali, talvez, sem saber, o filho, sem o saber, poderia ter contribuído para a morte do pai, que não ocorreu.

No filme, a busca pela verdade mobiliza muitas perspectivas e nem todas repousam sobre as mesmas bases. Todavia, o exame revela algo até então desconhecido para os envolvidos. Algo que afetaria a família do falecido e os assassinos. Nesse momento uma escolha impõe-se ao perito e ao discurso da ciência que produziu essa verdade. A luz do dia e a certeza revelada têm como contrapartida um silêncio, a decisão de que nem tudo deve encontrar sua expressão entre os vivos, restando ali como algo não sabido, limite do que deve ser dito.

[Originalmente publicada no Medium: http://bit.ly/Onh5Su

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Autor: jccoimbra

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