4 perguntas para Elza Ibrahim – ‘Manicômio Judiciário: da memória interrompida ao silêncio da loucura’

 

 

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O blog entrevistou a psicóloga Elza Ibrahim acerca do livro  ‘Manicômio Judiciário: da memória interrompida ao silêncio da loucura’.

1. Qual a história por trás do livro ‘Manicômio Judiciário: da memória interrompida ao silêncio da loucura’, como sua pesquisa teve início?

  • Na verdade minha pesquisa se deu, inicialmente, na prática. Eu trabalhei como psicóloga do Manicômio Judiciário por quase trinta anos. Durante esse tempo, sentia-me muitas vezes incomodada com a forma de funcionamento da engrenagem institucional, o que me gerou alguns problemas com a direção do hospital.
  • Foi somente em 2011 que optei por teorizar toda a vivência e experiência que tive nos anos trabalhados no MJ. Nesse momento, decidi formalizar teoricamente a minha prática e iniciei o curso de Mestrado na PUC-Rio, de onde se originou este livro. Ele está dividido em cinco capítulos. Inicialmente faz-se uma descrição sobre o que é o MJ e quem são as pessoas que se encontram lá internadas. Em seguida discute-se o surgimento da criminologia e suas terminologias, tais como o laudo de sanidade mental e a medida de segurança.
  • Um dos capítulos mais instigantes, em minha opinião, fala – de acordo com a ótica foucaultiana – sobre os ‘jogos de verdade’ que constituem o campo do instituído. É nesse ponto que se discute o papel dos operadores da saúde para, finalmente, passar-se a palavra ao ‘louco’, tema do último capítulo.

2. Quais as principais conclusões do livro?

  • Por se tratar mais do testemunho de um olhar vivido do que de uma visão do pesquisador que se encontra fora do campo pesquisado, o livro não se preocupa em tecer conclusões. Ao contrário, ele provoca questionamentos e reflexões acerca de como a loucura tem sido problematizada ao longo dos séculos e qual tem sido a prática dos operadores da saúde e do direito com respeito ao chamado ‘louco-criminoso’. Se quiséssemos falar em conclusão, poderíamos arriscar dizer que o livro pretende apontar para a necessidade urgente de uma atitude crítica frente às naturalizações do que se encontra secularmente constituído.

3. Qual o lugar da memória em seu trabalho?

  • A memória, como um conjunto de funções psíquicas, permite ao homem atualizar vivências de seu passado. Entretanto, ao tratar-se das instituições totais, percebemos que a memória, ainda que impreg­nada por invenções e delírios, é desqualificada e, via de regra, impedida de se expressar. Concordando com a filósofa Eugénia Vilela, citada no livro, entendemos a memória não apenas como um depositá­rio passivo de fatos, mas tão somente como produção mesma de subjetividade; a memória é um terreno fértil de produção de sen­tido, expondo-se por desvios, interrupções e equívocos. Esta memória, contudo, é vetada àqueles excluídos que se encontram no interior das instituições, sejam quais forem elas: prisões ou manicômios.

4. Do ‘manicômio judiciário’ ao ‘hospital de custódia e tratamento psiquiátrico’ há mudanças no funcionamento desse tipo de estabelecimento, em seus propósitos e objetivos?

  •  A meu ver, nenhuma mudança! Trata-se apenas de uma questão de nomenclatura.

 

Comentário

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Autor: jccoimbra

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