4 perguntas para Sônia Altoé sobre o livro ‘Infâncias Perdidas’

  1. Do que trata o livro ‘Infâncias Perdidas’ e o que levou você a escrevê-lo?
  • O livro é uma pesquisa, cuja metodologia se assemelha a uma etnografia e foi realizada no início dos anos de 1980, quando trabalhei, pela primeira vez, em internatos para crianças e adolescentes “carentes”.  Foi feita movida por uma forte indignação pessoal e profissional quanto ao tratamento oferecido aos internos – bebês até 18 anos – que eram colocados em  internatos, como esses estudados, pelo fato de serem considerados “carentes”, ou seja, serem filhos de pais pobres! O texto tem a qualidade e a sensibilidade do olhar de uma jovem pesquisadora que se surpreende e se implica naquilo que observa, e, com o que lhe é dito pelas crianças, adolescentes, ex-alunos e funcionários.
  1. Quais as principais conclusões do livro?
  • O leitor pode retirar desse estudo diversas conclusões. Esta é uma qualidade da metodologia que descreve, analisa e também permite ao leitor descobrir ou fazer análises além do texto.  Entretanto, posso dizer que a mais contundente para mim foi mostrar o que o Estado brasileiro, respaldado na lei e nas políticas públicas, oferecia às nossas crianças. Em nome de promovê-las oferecia-lhes um cotidiano de ócio, submissão cega à autoridade, sem sentido educativo e as excluía do meio familiar e social por muitos anos.

3. Considerando o período em que a primeira edição do livro foi publicada, anos 90, e o nosso momento atual, pode-se falar ainda em     ‘infâncias perdidas’? Algo mudou nesse intervalo? O que teria mudado no que se refere a esse tema?

  • Desde a promulgação do ECA, em 1990, muitas coisas mudaram por força de lei. Temos formas institucionais diversificadas para atender às crianças e o processo tende a ser mais rápido no encaminhamento para o convívio familiar. Mas os problemas ainda são inúmeros, como por exemplo: a qualidade do atendimento nos centros de acolhimento e de cumprimento de medidas socioeducativas, a não existência de formação profissional para uns ou de formação permanente para outros, a agilidade dos processos na justiça, uma rede de proteção mais eficiente. O sistema acaba por recriar situações que são consideradas no livro, ou, que o são de forma indireta, favorecendo assim uma reflexão sobre a realidade atual. Considero um livro muito interessante para o estudante ou jovem profissional, pois explicita as relações de micropoder institucional e os sensibiliza quanto ao sofrimento da criança e do adolescente institucionalizados.
  • À época, o título objetivava enfatizar que o tempo da infância, importante na construção do ser humano, era um tempo que se perdia, ao invés de ser de construção de uma base sólida afetiva, social, de aprendizado formal. Ao invés, o sistema tinha uma “eficiência perversa a ponto de obter a anulação do sujeito numa morte branca – silêncio esvaziado de qualquer palavra criativa ou opinião contestatória”, como escreveu Circe Vital Brazil.  Atualmente, mesmo com um enquadre institucional diferente, o sistema de proteção ainda não oferece meios para essa construção e/ou para a recuperação da criança que viveu situações traumáticas, de violência ou negligência, que justificam que ela seja retirada do convívio de seus familiares. Nesse sentido, o título é atual e marca que a nossa política para a infância brasileira, na sua execução, ainda não dispõe de meios para a tarefa que se propõe, através do ECA, promulgado há 24 anos e não faz jus ao grande desenvolvimento econômico que o país obteve nesse período.
  1. Qual sua expectativa com a nova edição do livro?
  • Que esta leitura renove o ânimo dos trabalhadores no campo da proteção à infância e ao adolescente e que seja um instrumento de transformação na busca de um sistema mais adequado para acolhê-los, possibilitando que eles saiam do sistema e voltem ao convívio familiar num tempo curto, sempre que possível, e principalmente mais fortalecidos do que entraram, recuperados de seus traumas, da violência e do sofrimento vivido na família ou na rua. Sobretudo, que o acolhimento não seja um fator suplementar de sofrimento para as crianças, mas de restabelecimento de sua saúde e alegria de viver em sociedade.

-> O livro ‘Infâncias Perdidas’ foi relançado em edição revista e ampliada pela editora Revinter. Participe do evento relativo a essa nova edição: Uerj, 14/5, 19h. Outras informações: http://on.fb.me/1pxbL00

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Autor: jccoimbra

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