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É sabido que no debate público a respeito das alianças contemporâneas, especialmente no momento em que homossexuais reivindicaram direitos de família na França, boa parte dos psicanalistas manifestaram-se contra tais mudanças. Para tanto, e…

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É

sabido que no debate público a respeito das alianças contemporâneas, especialmente no momento

em que homossexuais reivindicaram direitos de família na França, boa parte dos psicanalistas

manifestaram-se contra tais mudanças. Para tanto, entrincheiraram-se no Édipo que, sem

dúvida, ocupa lugar central na psicanálise desde Freud, considerando-o como contraponto ao que eles

passaram a nomear de barbárie. O Édipo – condição fundante da subjetividade humana – foi posto num

campo de batalha em oposição à ameaça supostamente conduzida por famílias de homossexuais e de

lésbicas. Lei e Desejo – enraizados no coração do Édipo – foram e ainda são conceitos normalmente

invocados quando se exige a interlocução entre Psicanálise e Direito. Por sua vez, o autor faz lembrar

que a homoparentalidade é somente uma dentre outras formas de aliança conjugal e familiar que

buscam legitimação social no cenário contemporâneo. As ‘uniões livres’, as ‘produções independentes’, as

famílias ‘recompostas’ e ‘adotivas’, entre outras, demonstram que a sexualidade, a aliança e a reprodução

humana se dissociaram completamente ao longo das últimas décadas. Na contramão dos psicanalistas

que avocam elevados ideais civilizatórios, o autor demonstra que, mesmo na versão estrutural

formulada por Lacan, o Édipo condensa os contornos da família pequeno-burguesa e, por isso, acorrenta

os registros que hoje em dia se encontram desatrelados. Para tanto, ele lança mão da genealogia

de Foucault e a explora no limite da radicalidade com que este último critica o Édipo enquanto eixo

formador da subjetividade. O Édipo para Foucault é uma matriz moderna pela qual cada sujeito passa

a administrar sua sexualidade e a si próprio numa sociedade cuja arte de governo está centrada no

poder sobre a vida humana. A psicanálise teria sido aquela que recuperou o sistema de aliança face

à falência da antiga gestão familiar e à valorização do dispositivo da sexualidade, lançando mão do

Édipo enquanto instrumento principal dessa empreitada. Por seu turno, o autor insere na esteira dessa

crítica, a idéia de que o Édipo herdou também vetores históricos das alianças entre homem e mulher e

entre pais e filhos, o que revela o estreitamento ainda maior entre psicanálise e cristandade ou ainda, a

racionalidade científica burguesa. Donde a necessidade de revisão urgente do Édipo, com tudo que ele

implica, a saber, a Lei simbólica fundada na diferença sexual e no referencial fálico, em face dos jogos de

força na atualidade. Mas, não se trata aqui de um libelo contra a psicanálise ou, simplesmente, contra o

Édipo. Ao contrário: a tarefa de recolocar essa discussão nos trilhos da genealogia é bastante promissora,

pois permite chamar atenção para a complexidade da psicanálise, sobretudo, do seu fundador, Freud.

Não é preciso abdicar do Édipo para perceber que o saber freudiano se avizinha das experiências éticas

e estéticas da ars erótica, criando, assim, outras formas de interlocução com o Direito e a Filosofia frente

aos desafios da vida contemporânea. Desse modo, este livro interessa aos que, oriundos da Psicanálise,

da Psicologia, do Direito, da Filosofia e das Ciências Humanas em geral, se inquietam com tais desafios

sem sucumbirem a idéias acabadas de civilização e barbárie, cujos pólos se mostram muitas vezes

mais próximos do que se imagina.

 

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Nem_dipo_virtual

Autor: jccoimbra

a reader, above all

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